A ciência como vocação



Baixar 81.72 Kb.
Página4/6
Encontro05.12.2019
Tamanho81.72 Kb.
1   2   3   4   5   6
3 – Filosofia Marginal
I - A ontologia política do mundo desencantado
A partir de uma sugestão de Sheldon Wolin, podemos localizar Weber dentro da tradição da "teorização épica". Essa forma de teorizar é distinta tanto do "teórico empírico", que deseja que a teoria corresponda ao mundo, quanto do filósofo analítico, que deseja que a teoria seja uma elucidação de conceitos. Nas palavras de Wolin, na teoria épica “conceitos, símbolos e linguagem são fundidos em um grande gesto político para o mundo, um pensamento inspirado pela esperança de que em algum momento a ação será unida à teoria e se tornará o meio para se fazer uma grande afirmação teórica no mundo”.31 Além disso, os teóricos dentro dessa tradição trabalham com a suposição de que o ímpeto da teorização vem da natureza problemática ou da crise do mundo político, e não do estado de crise das teorias sobre o mundo. "O teórico épico tem se preocupado com uma magnitude particular de problemas criados por eventos reais ou estados de coisas no mundo, e não com problemas relacionados a deficiências no conhecimento teórico".32 Em resumo: os teóricos épicos não querem apenas interpretar o mundo de maneiras diferentes, eles querem mudá-lo - dando-lhe uma interpretação diferente.

Entretanto, o problema com a caracterização de Weber como um teórico épico é que suas próprias restrições metodológicas levam a uma recusa em fazer e em admitir a necessidade de uma teoria política coerente e explícita, já que ela é expulsa para as margens do seu trabalho. A estranha e paradoxal qualidade do pensamento de Weber pode ser entendida uma vez que percebamos que o que nos é apresentado é a construção de uma "negação épica da possibilidade de uma teoria épica para a era moderna".33 De fato, a explicação de Weber do processo de desencantamento do mundo, como podemos encontrá-lo, por exemplo, em sua famosa segunda “consideração intermediaria” [Zwischenbetrachtung],34 não é apenas uma reconstrução histórica do processo de autonomização relativa das esferas de valor e da secularização. O desencantamento é muito mais radical do que a secularização - pela qual conteúdos de natureza religiosa são realizados no mundo profano, permanecendo fundados numa relação com a transcendência. Na medida em que o desencantamento dissolve qualquer referência a qualquer transcendência possível, seja Deus, Ser, História, Humanidade ou Razão, ele torna-se o fim da religio como tal e o começo de uma era de absoluto niilismo em que qualquer instância superior de juízo, por meio da qual poderíamos justificar nossas ações ou julgar as ações de outros, é simplesmente e puramente dissolvida. O que aparece como uma reconstrução histórica da autonomização das esferas de valores é, de fato, uma destruição histórica da unidade da Razão e, portanto, da metafísica. Diz-se que as diferentes esferas de valores seguem suas próprias leis rigorosas e irredutíveis [Eigengesetzlichkeiten], fraturando assim a "cobertura" cosmológica que de alguma forma assegurava, se não a sua unidade, pelo menos sua possível convergência. O ens et verum et bonum et pulchrum convertuntur dos escolásticos foi substituído, de uma vez por todas, por uma luta universal e mortal entre os deuses: “Desde Nietzsche, percebemos que algo pode ser belo não apenas a despeito do aspecto em que não é bom, mas justamente por este mesmo aspecto”.35 A partir desta perspectiva, a declaração frequentemente citada por Weber de que “apenas dois caminhos estão abertos: Hegel ou nosso modo de proceder”,36 isto é, Hegel ou Nietzsche, é assumido uma relevância particular. Isso revela que Weber está envolvido numa forma paradoxal de "política ontológica". Nos passos de Wolin, essa forma mostra-se paradoxal porque se definirmos a política ontológica como o tipo de política que está "preocupada em ter acesso ao mais fundamental tipo de verdade, que é sobre a natureza última do ser último",37 então parece que para Weber a verdade mais fundamental é que não há uma verdade filosófica, ou melhor, que a verdade é um assunto puramente subjetivo, uma questão de decisões "demoníacas" que estão além de qualquer argumento racional. É verdade que a ética da responsabilidade de Weber é uma ética que reconhece valores fundamentais e defende uma discussão formalmente racional de valores concorrentes em termos de sua coerência e da possibilidade de consequências perversas. Se, por um lado, essas discussões podem esclarecer as próprias posições éticas e conduzir a uma decisão prudente, elas não podem, por outro, encontrar adequadamente aqueles valores fundamentais. Logo, esses valores permaneceriam sempre arbitrários. Embora as discussões racionais da relação entre valores fundamentais e os meios para realizá-los antecedem as decisões, eles não excluem as próprias decisões. Pelo contrário, na medida em que as discussões racionais revelam a pluralidade e a arbitrariedade dos valores fundamentais, elas também revelam e implicam a necessidade de uma decisão final, que está além da discussão racional.

Além disso, deve-se notar que a destruição weberiana da metafísica é altamente filosófica. Sua tentativa nietzscheana de se livrar de uma vez por todas das filosofias hegelianas da história baseia-se em uma filosofia trágica da história que apresenta o desencantamento do mundo como o "destino de nossa era". Esta é a mensagem central da "tese da racionalização":


O destino [Schicksal] de nossa época, com sua racionalização e intelectualização características e, principalmente, o desencantamento do mundo, é que os valores fundamentais e mais sublimes se retiraram da vida pública, tanto no âmbito transcendental da vida mística quanto na irmandade das relações pessoais imediatas entre os indivíduos.38
O destino, entretanto, não é uma categoria empírica: é metafísica. O destino é uma forma de "enredamento" (Ricoeur) da trama narrativa que de modo especulativo recolhe os fragmentos caóticos da realidade em uma totalidade fechada, que reordena os eventos contingentes em uma série teleológica ordenada, que, retrospectivamente, confere significado aos eventos individuais. No caso do historicismo metafísico de Weber, parece que, à primeira vista, a categoria de destino despoja os eventos individuais de seu significado objetivo. Um olhar mais atento revela, no entanto, que embora o destino realmente elimine o significado objetivo dos eventos, ele abre ao mesmo tempo a possibilidade, se não a necessidade, de envolvê-los com o brilho comum do significado subjetivo. Vemos, aqui, Weber lutando para criar um mundo - seu mundo - sem significado e sem Deus. E precisamente nesse ponto, o anti-profeta mais uma vez revela ser um profeta.39 A qualidade tortuosa de seu pensamento, o pathos do desespero revela que Weber, de modo intencional, pretende que sua profecia da fatalidade seja auto-refutável. Nesse sentido, Weber não é um pessimista cultural.40 Ao contrário de um Tönnies ou de um Horkheimer, ele não está sentimentalmente ansioso por um retorno à "bela totalidade" (a schöne Totalität de Hegel) do mundo ético de uma comunidade fechada. Pelo contrário, ele quer que o indivíduo seja livre para agir com responsabilidade, que assuma a posição heroica do super-homem e que atribua significado ao mundo. Este não é um chamado nem uma tarefa para os "últimos homens" do "Prólogo do Zaratustra"41 - é um apelo por e para o virtuosi da política. Que eles ajam com fé contra o destino, desbloqueiem os trilhos, vão contra a corrente da história e a fazem desviar de seu caminho para a servidão: esse é o chamado final de um teórico épico que nega a possibilidade da teoria épica. Uma vez que isso seja entendido, também entendemos que a defesa de Weber da liberdade de valores está longe de ser isenta de valores. A liberdade de valores não é apenas impossível, mas também não é desejável; só aprofundaria o vazio desencantado do mundo moderno se agíssemos como se fosse uma possibilidade.
2 – A complementariedade ideológica do decisionismo e da liberdade de valores
Se considerarmos a demanda por neutralidade axiológica como sendo ela própria baseada em um juízo normativo, logo somos forçados, ao seguir o argumento de Weber, a investigar seus fundamentos ou, talvez mais precisamente, sua justificativa. Contra Weber, nomes como Albert e Popper, Apel e Habermas apontaram que a sua afirmação de que o valor da ciência não pode ser justificado possui algum tipo de "contradição performática".42 A ciência de alguma forma se justifica. Esse é o caso, porque a ciência é sempre e necessariamente uma empreitada comunal, não um empreendimento solipsista. A ciência pressupõe a lógica, e a lógica pressupõe uma ética, porque a validade lógica de um argumento não pode ser controlada sem pressupor de modo contra-factual uma comunidade comunicante ilimitada de cientistas capaz de alcançar algum entendimento intersubjetivo e a formação de um consenso. A ligação entre ciência e ética é, portanto, analítica, e, uma vez entendida, não é difícil demonstrar, por exemplo, que os falibilistas radicais (Popper e Albert) pressupõem normas de falsificação que não podem ser falseadas sem autocontradição performativa. Pace Popper e Weber, não é preciso decidir pela ciência ou pela razão. A razão não é apenas um valor, é um fato (Faktum der Vernunft, de Kant), e a ciência reflexivamente encontra a si mesmo na medida em que fundamentalmente, necessariamente e transcendentalmente pressupõe a razão. A oposição de Weber entre fatos e valores é, portanto, espúria, especialmente devido a sua decisão prematura de sair às pressas do táxi da reflexividade. Essa supressão da falácia naturalista, segundo a qual não se pode inferir valores a partir dos fatos, não afeta, no entanto, o ideal regulador da objetividade da ciência. A ciência visa de fato a verdade objetiva. Não é assim tanto a neutralidade axiológica que é problemática quanto o decisionismo em que se baseia. A neutralidade axiológica e a normatividade transcendental não se excluem mutuamente, mas incluem-se mutuamente, pois a ciência objetiva é, em última análise, fundada na razão.

Podemos deixar aos filósofos a questão de saber se a auto-fundação da razão é transcendental, como afirma Apel, ou universal, como afirma Habermas, ou, ainda, histórica, como diria Castoriadis, e voltar a considerações mais sociológicas sobre a complementaridade ideológica do objetivismo livre de valores, do decisionismo existencial e do tecnocratismo antidemocrático.43 Vimos que Weber excluía juízos de valor do domínio da ciência, supostamente porque a ciência está apenas preocupada com questões factuais, lógicas e técnicas (os meios) e tem, por princípio, nada a dizer sobre questões práticas (os fins), pois não são passíveis de verdade.44 Os valores são subjetivos, pertencem ao reino demoníaco da escolha pura. Os valores são como cores ou gostos: não se pode mais argumentar que o azul é melhor que o vermelho na mesma medida em que se pode argumentar que a civilização é melhor do que o canibalismo.45 A esse respeito, é preciso decidir, e Carl Schmitt nos lembra que a decisão é exatamente o oposto da discussão: "Decisão", diz ele, "significa [arbitrariamente] interromper as discussões, a argumentação".46 Mas se este é o caso, então uma astuta divisão do trabalho entre a análise científica dos meios e a decisão política impõe-se no reino da res publica. Os “eruditos sem inteligência prática” (Vico) podem se pronunciar sobre a economia e a eficácia dos meios necessários, mas têm que deixar aos políticos a determinação dos fins a serem alcançados, de modo que são eles que decidem em função de suas crenças, de seus interesses ou de seus gostos pessoais, cujos fins devem ser perseguidos. Assim, aqui onde o objetivismo livre de valores e o decisionismo existencial se unem, vemos que um aumento da racionalidade de um lado vai junto com o irracionalismo fundamental de outro. Enquanto isso, entretanto, a racionalização técnica e a cientifização de nossa civilização progrediram ao ponto de se apoderarem dos próprios fins. Sob o pretexto weberiano do relativismo ético e da neutralidade axiológica das ciências, aqueles que decidem subtraíram primeiro a determinação dos fins à discussão científica apenas para descobrir mais tarde que a subordinação dos fins aos meios foi convertida na simples inversão dos meios e dos fins. Este é o ponto em que o modelo decisionista de política dá lugar ao modelo tecnocrático, onde as restrições técnicas e sistêmicas dos tecnocratas eliminam toda escolha alternativa e se impõem em detrimento do poder de decisão dos próprios políticos. Nesse pesadelo cibernético, valores e fins são reduzidos a meios, e a relação entre ciência e política é simplesmente invertida. Os cientistas decidem e os políticos seguem a trilha, como a política nuclear da sociedade de risco mostrou com muita clareza.47 A oposição flagrante dos modelos decisionista e tecnocrático não deve esconder, no entanto, o desdém que eles têm em comum pelos cidadãos e pela democracia. Se o modelo de decisão reduz o papel dos cidadãos voláteis à seleção de políticos mais ou menos carismáticos por aclamação em eleições periódicas, o modelo tecnocrático, em princípio, não precisa mais dos cidadãos não esclarecidos como tais, a menos que seja para informa-los sobre as decisões racionais que foram tomadas. O poder não emana mais da comunidade; na verdade não precisa-se mais da comunidade. Em ambos os casos, o político (la politique, como dizem em francês), isto é, a política no sentido clássico da palavra, entendida como a determinação racional da "boa vida" por meio da discussão pública, é reduzida à política (la politique), isto é, a política no sentido contemporâneo da palavra, entendida como aquela que acontece no subsistema político de uma sociedade "sem centro".48

Mas voltemos a Weber. Se ele tivesse vivido tempo suficiente, ele provavelmente teria sido um dos maiores críticos das tendências despolitizantes da era tecnocrática. Sua defesa da liberdade de valores era uma faca de dois gumes. Usando a distinção clássica de Isaiah Berlin entre liberdade "positiva" e "negativa", poderíamos dizer que ela visa, por um lado, libertar a ciência racional "dos" juízos de valor irracionais e, por outro, dar aos políticos a liberdade “para” perseguir apaixonadamente seus valores privados na esfera pública.49 Como resultado do desencantamento do mundo, que Landshut definiu corretamente como “a destruição progressiva de qualquer força geralmente vinculante na esfera pública”50, os valores se retiraram da esfera pública para a esfera privada. Incorporando o advogado habermasiano, pode-se perguntar se não poderíamos considerar a possibilidade de que as discussões ocorreriam na esfera privada, onde os valores de um e do outro seriam submetidos a um teste crítico para conferir se ambos poderiam ganhar o consentimento daqueles que estão presentes - e, contra-factualmente, mesmo daqueles que estão ausentes -, levando assim ao restabelecimento de valores que são presumivelmente objetivamente válidos. Weber, entretanto, antecipa explicitamente tal possibilidade: "É absolutamente excluído", diz ele, "que dessa forma, precisamente por ir na direção oposta, poderíamos chegar a qualquer ética normativa ou encontrar a obrigatoriedade caráter de qualquer imperativo. Todos sabem que tais discussões, na medida em que aparentemente nos dão a impressão de “relativismo”, são um obstáculo a esse objetivo”.51 Fatalmente ficamos portanto com o demonismo na esfera privada e o decisionismo na esfera pública.



Não por acaso, esse decisionismo também explica sua defesa de uma democracia plebiscitária e suas súplicas à instalação de um parlamento forte. A democracia liberal não representa mais um valor em si para Weber do que para Schumpeter.52 Se Weber pleiteia a democracia parlamentar, que ele classifica de forma reveladora em Economia e Sociedade como um sub-tipo de dominação carismática, não é porque ele quer salvaguardar valores democráticos; não, é por razões puramente pragmáticas.53 Primeiro, ele o faz porque acha que só um parlamento forte pode controlar a administração; e, em segundo lugar, e mais importante, porque ele considera que um regime parlamentar constitui a melhor garantia e o melhor meio de recrutar um líder político carismático (Führer), dotado de uma forte personalidade, paixão, senso de proporção e coragem suficiente para assumir a responsabilidade pelas violentas consequências que o uso do poder diabólico na política inevitavelmente implica.54 Que seu apego às instituições democráticas não tem nada a ver com o princípio republicano da soberania do povo, é clara e brutalmente revelado em sua confissão ao professor Ehrenburg: “Formas de constituição são para mim meios técnicos como qualquer outro mecanismo. Eu ficaria muito feliz em ficar do lado do monarca contra o parlamento se ele fosse um político ou mostrasse sinais de se tornar um”.55 Para Weber, o ideal de democracia participativa não tem atração como tal. Invariavelmente ele fala sobre o eleitorado das modernas democracias de massa em termos depreciativos que estão muito mais próximos da psicologia de massa do século XIX do que da sociologia dos chamados "novos movimentos sociais". Para Weber a escolha de alternativas não é entre o poder exercido pelo povo e o poder exercido sobre o povo, mas entre o poder exercido sobre o povo por um líder carismático e o poder exercido sobre este mesmo povo por uma administração burocrática sem líder.56 Weber não foi um democrata de coração. Mas, apesar de sua forte inclinação para o "cesarismo" e todas as suas afinidades com o decisionismo protofascista de Carl Schmitt, o conselheiro do Terceiro Reich, devemos ser cautelosos em cometer o paralogismo de a reductio ad Hitlerum (Leo Strauss). Afinal, Weber era um liberal em desespero, defendendo o estado de direito contra aqueles que queriam manipular a lei para fins políticos. No entanto, contra Weber e, de alguma forma, também contra Marx, penso que, como sociólogos e como cidadãos responsáveis, devemos levar a democracia a sério e permanecer sintonizados com a dimensão normativa da política, conforme preconizado pelos clássicos. A filosofia política medeia entre fé e ciência positiva. Se uma política normativa sem sociologia é vazia, a sociologia sem uma visão normativa da "boa vida" é igualmente cega.
3 – As antinomias do pensamento nominalista de Weber
Adjacente à sociologia em sentido estrito, Georg Simmel distinguia, como vimos, dois campos da sociologia filosófica: a saber, na fronteira superior, a metafísica social, e, na inferior, a epistemologia social. No caso de Weber, a continuidade entre sua política ontológica do mundo desencantado e sua epistemologia das ciências sociais é assegurada pela sua visão de mundo [Weltanschauung] nominalista, a qual não encontramos apenas em sua doutrina ética, mas também sedimentada em seus escritos epistemológicos e metodológicos.57 Se o nominalismo aparece no domínio ético-político na forma de uma negação da existência de valores objetivos, ele se expressa no domínio epistemológico como uma negação da existência objetiva de fatos sociais.

Tem sido frequentemente notado pelos estudiosos weberianos que existe uma tensão curiosa, se não uma "incompatibilidade fundamental", entre os preceitos metodológicos que Weber defende explicitamente em seus escritos metodológicos e os que ele implicitamente aplica em sua pesquisa substantiva.58 Penso que a raiz dessa antinomia entre teoria e prática pode ser encontrada no nominalismo profundo e debilitante de Weber. É o resultado da incomensurabilidade que existe entre a ontologia implícita do filósofo reflexivo e o trabalho operacional do sociólogo. Cassirer observou nesse contexto que "as condições da produção científica diferem daquelas da reflexão crítica".59 E, de fato, dado que não podemos usar nossas funções intelectuais para construir a realidade da experiência e, ao mesmo tempo, submetê-las a uma investigação crítica, o nominalismo do filósofo entra em uma colisão séria com o realismo do trabalho do sociólogo. Sempre que os sociólogos estão fazendo pesquisas ou desenvolvendo uma teoria, eles necessariamente tecem, querendo ou não, afirmações ontológicas - de um modo vagamente realista, eles falam de "estratificação", "revoluções", "sistemas políticos", entre outros, assumindo portanto que essas abstrações correspondem a algo real lá fora. Filósofos – embora não pareçam realmente se importar com a sociologia – ou sociólogos com inclinação filosófica quando objetivam discutir e analisar criticamente as teorias de outros, adotam por vezes uma postura kantiana para desmascará-los: eles frequentemente acusam os sociólogos de confundirem as categorias do pensamento com as coisas em si, cometendo assim a "falácia da submissão transcendental".60 A solução para essa colisão de discursos ontológicos é adotar, desde o início, a posição do realismo transcendental e adaptar reflexivamente seus conceitos à crítica epistemológica, para evitar o erro fatal da reificação.61 Weber, no entanto, permanece no nível da crítica reflexiva, logo não deve ser surpresa que ele seja pego em uma "contradição performativa" - dizendo uma coisa e fazendo outra ao mesmo tempo.

Depois desse discurso geral sobre o método, vamos examinar agora um pouco mais de perto algumas das tensões no pensamento de Weber. Eu vou discutir rapidamente três delas.



Baixar 81.72 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino fundamental
Processo seletivo
ensino médio
Conselho nacional
minas gerais
terapia intensiva
oficial prefeitura
Curriculum vitae
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
educaçÃo física
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
Conselho regional
ensino aprendizagem
ciências humanas
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Dispõe sobre
ResoluçÃo consepe
Colégio estadual
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
extensão universitária
língua portuguesa