A ciência como vocação


– O Táxi da Reflexividade



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2 O Táxi da Reflexividade
A tentativa de Weber de criar um espaço para uma ciência sociológica autônoma que não deve nada à filosofia, e que permaneça rigorosamente apartada dela, está irremediavelmente destinada ao fracasso. Aqui, o reprimido pode e irá retornar. E isso pelo único motivo que a sociologia não é, nunca foi, e provavelmente nunca será, uma ciência paradigmática, baseada em fundamentos sólidos e indubitáveis. Luhmann, com seu característico humor mordaz, diagnosticou o estado da sociologia atual como "paradigmatase múltipla".18 A crise que é excepcional nas ciências exatas é normal e, por assim dizer, institucionalizada nas ciências mais brandas. A sociologia é mais que um simples discurso e menos que uma ciência. Ela captura, prolonga, esclarece e sistematiza os discursos que ocorrem na vida social, mas a sistematização e o esclarecimento não pode mais transformar a doxa em episteme. Os fatos são, como colocou um filósofo, "carregados de teoria". Kepler, por exemplo, observou muitos dos mesmos fatos que Tycho Brahé, mas somente porque os via de maneira diferente; via coisas diferentes.19 O mesmo poderia ser dito de Marx, Weber, Durkheim ou qualquer teórico social contemporâneo. No caso da teoria social, arranhar a superfície do texto é o suficiente para mostrar que seu autor tomou tacitamente uma posição sobre questões metateóricas mal resolvidas, e que tal posição forma e informa as teorias de maneira significativa. Questões metodológicas, epistemológicas, ontológicas, éticas, ideológicas e outras afins, que são varridas para debaixo do tapete textual, vão continuar subindo nas margens de seus textos.20 A tentativa de romper com uma tradição supostamente 'pré-científica' de filosofia social e política tem que ser rejeitada, pois é evidente que há uma continuidade fundamental com os tópicos da teoria tradicional por mais que o vocabulário no qual ela é expressa seja reelaborado.21 Quer se queira ou não, a sociologia é a herdeira das filosofias política e moral. A suposição (Straussiana) de Donald Levine de que a sociologia é um esforço sublimado para lidar com os problemas gerados pela secularização do pensamento moral pode ser confirmada: a sociologia persegue os fins da tradição clássica por outros meios.22

Na próxima seção, apresentarei Max Weber como um "filósofo marginal" - isto é, um filósofo que recusa uma filosofia explícita, muito embora reconheça a sua existência nas margens de seu próprio trabalho. No entanto, a fim de limpar o terreno, com objetivo de ganhar alguma margem de manobra para o tratamento de questões filosóficas no pensamento de Max Weber, primeiro iremos considerar o claro reconhecimento de Georg Simmel de que a filosofia não pode ser substituída pela ciência, mas apenas deslocada.



Ao contrário de Weber, que ironicamente professou que "não sabia nada sobre filosofia", Simmel era um filósofo de profissão. Ele não apenas escreveu monografias importantes sobre filósofos como Kant, Schopenhauer e Nietzsche, mas eu chegaria a dizer que sua sociologia só pode ser propriamente entendida no contexto de sua metafísica vitalista, como apresentada em seu "testamento filosófico".23 Além de suas respectivas origens profissionais, Simmel e Weber diferem sobretudo em estilo. O espírito simmeliano é o "esprit de finesse", o espírito de sutileza, refinamento, tato, delicadeza e perceptividade. Contrasta bastante com o "esprit de sérieux" de Weber, algo como um rigoroso "espírito de geometria". Como um amador pré-científico que procura diversificação e variedade em vez de variação sistemática entre os fenômenos observados, a mente de Simmel vagueia livremente de um objeto para o outro, e isso de uma maneira semelhante a Husserl. Se este filósofo poderia pegar qualquer objeto intencional - a macieira em flor no jardim ou o tinteiro sobre sua mesa - como um "guia transcendental" para a análise das estruturas noêmicas-noéticas da consciência,24 Simmel poderia, de modo correlato, tecer toda a sua filosofia de vida a partir da percepção de uma simples cadeira ou de um cabo de panela.25 Para Simmel, nada é muito trivial. Tudo está ligado ao essencial, e até um único detalhe pode revelar o significado global da vida. O que é aparentemente considerado sub specie momenti é, de fato, interpretado sub specie aeternitatis. Não muito prejudicado pela contiguidade das fronteiras disciplinares, Simmel passa facilmente da filosofia para a sociologia, da sociologia para a estética, da estética para a ética, da ética para a psicologia e da psicologia para a história. Em uma passagem que deveria, ou pelo menos poderia, ser impressa na primeira página de qualquer livro sobre teoria social, ele declara abertamente que é completamente inútil perguntar se suas investigações pertencem ao campo da sociologia ou à filosofia:
A questão se essas investigações. . . pertencem à filosofia social ou se de algum modo já pertencem à sociologia é bastante supérfluo. Mesmo que elas formem uma região de fronteira entre ambos os métodos - a certeza do problema sociológico e sua delimitação em relação ao modo de questionamento filosófico não sofre mais do que a determinação dos conceitos do dia e da noite sofrem do fato de que há um crepúsculo, ou que os conceitos do ser humano e do animal sofrem com o fato de que talvez possamos encontrar estágios intermediários que unificam as características de ambos de tal maneira que não podemos separá-los conceitualmente um do outro.26
Como Weber e Durkheim, Simmel queria "fundar" a sociologia como uma disciplina relativamente autônoma. Fundar uma disciplina implica um ato de demarcação que indica o objeto peculiar da ciência, o tipo de métodos e procedimentos apropriados e as normas que devem ser invocadas para julgar seus resultados. Essas demarcações tornam-se, então, pressupostos da prática subsequente. Em "O campo da sociologia", capítulo inicial de sua Grundfragen der Soziologie, chamada de "pequena sociologia", Simmel engaja-se nessa fundação. Para delimitar a natureza da sociologia, ele parte de algumas considerações ontológicas e epistemológicas gerais sobre a natureza da sociedade. Simmel conclui, em primeiro lugar, que a sociedade não é uma substância concreta, mas um processo de associação, isto é, um processo contínuo de interação espiritual entre indivíduos que os une; em segundo, conclui que a sociologia, para formar seu objeto, como qualquer outra ciência, depende de um método, isto é, de processos de abstração e síntese. "O insight a seguir: que o homem em toda a sua natureza e em todas as suas expressões é determinado pelo fato de que ele vive em interação com outros homens é obrigado a levar a um novo modo de consideração em todas as chamadas ciências humanas."27 A partir desse insight abrangente de que todos os domínios da vida encontram sua origem e sua fundação nas interações entre os indivíduos, Simmel procede a uma distinção entre três áreas básicas problemáticas da e para a sociologia. A primeira área problemática é a "sociologia geral": ela estuda o todo da vida histórica na medida em que é formada socialmente. A segunda área problemática é a "sociologia pura ou formal": ela investiga as formas de associação que produzem a sociedade estruturando as interações entre os indivíduos. Como exemplos de tais formas, que podem ser exibidas pelos mais diversos grupos, Simmel menciona superioridade e subordinação, competição, imitação, divisão do trabalho e formação de partidos. Tudo isso é um pouco vago e confuso, e claramente insuficiente para fundar as duas ciências especiais: a sociologia geral, que é demarcada por seu objeto, e a sociologia formal, que é especificada por seu método.28 De qualquer forma, mais importante para nossas considerações é a delimitação de uma terceira área problemática: a sociologia filosófica. Ao contrário de Weber, Simmel admite e reconhece que a constelação de problemas sociológicos transcende-se na direção da reflexão filosófica. A reflexividade não pode ser usada como um táxi conveniente que se pode mandar para casa assim que se chega.29 Consequentemente, é preciso ampliar o conceito de sociologia para incluir nele as questões filosóficas que estão, por assim dizer, ligadas às fronteiras inferiores e superiores da disciplina no sentido mais restrito. Uma fronteira marca o domínio das pré-condições cognitivas da sociologia, seus fundamentos epistêmicos; uma outra marca o domínio da representação (Darstellung) e da pesquisa (Forschung), onde os conteúdos necessariamente fragmentários do conhecimento positivo expandem-se em uma imagem de mundo e relacionam-se à totalidade da vida. Aqui está o que Simmel diz sobre os dois domínios:
Exatamente como todas as outras ciências que objetivam a compreensão imediata do dado, a ciência social também está cercada por dois domínios filosóficos: um deles, que não pode ser correspondido pela própria pesquisa, uma vez que se baseia neles, abrange as condições, os conceitos fundamentais e os pressupostos da pesquisa específica. No outro campo, esta pesquisa é uma pesquisa específica trazida para conclusões e conexões, e relacionada a questões e conceitos que não têm lugar na experiência e no conhecimento objetivo imediato. O primeiro campo é a epistemologia da disciplina particular, o segundo campo é a metafísica deles.30
Munido com este enriquecimento do campo da sociologia, reconhecido pela legitimidade do questionamento filosófico na sociologia, podemos agora proceder a uma análise do nominalismo filosófico de Weber, como se expressa tanto em sua metafísica política do mundo desencantado quanto em sua epistemologia construtivista. No primeiro caso, o nominalismo adquire a forma de uma negação da existência de valores objetivos; no segundo caso, aparece na forma de uma redução da realidade social a um conjunto de construções analíticas que o sociólogo impõe arbitrariamente a essa realidade.



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