A ciência como vocação


– Ciência normal com uma coloração existencialista



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1 – Ciência normal com uma coloração existencialista

Ninguém pode engajar-se num campo social ou num jogo social sem uma “ilusão paradoxal”, sem algum envolvimento, sem ter para si mesmo que o jogo valha a pena.3 No campo da sociologia, como em qualquer outro campo social de atividade organizada, podemos ainda distinguir aqueles que vivem "da" sociologia daqueles que vivem "para" a sociologia.4 Aqueles são tipos-ideias, e enquanto utopias conceituais eles não podem por definição serem encontrados na realidade. Na vida real entretanto, sempre encontramos uma mistura de ambos. Para um observador participante com um olho aguçado para a "distinção", não é difícil selecionar e estabelecer a distinção entre o "verdadeiro scholar", movido por uma vocação verdadeira, e o carreirista, que está ocupado acumulando capital intelectual para se vender no mercado acadêmico. O amor ao conhecimento, literalmente philosophia ou logophilia, é o que distingue o mero sociólogo profissional do homem de conhecimento afetado pela "mania" platônica.

Max Weber foi um homem apaixonado, claramente guiado por aquilo que Freud chamava de "pulsão epistemofílica" [Wißtrieb]. E, no entanto, na famosa palestra que proferiu um ano antes de sua morte para estudantes em Munique, "A Ciência como Vocação", o tipo de trabalho científico que Weber defende parece um pouco sem sangue nas veias - "algo de teoria cinzenta", como Rickert comentou com propriedade.5 De fato, para Weber a progressiva americanização da vida acadêmica, a especialização constante de uma ciência fatalmente burocratizada e a concomitante fragmentação do conhecimento tornaram-se impossíveis de serem abolidas. Para alcançar qualquer objetivo no campo da ciência é preciso atualmente ser um especialista, um Fachmensch, em posse de um conhecimento factual esotérico extremamente preciso e específico, por mais áridos e insignificantes que possam ser esses fatos detalhados. Weber, no entanto, menciona que a ciência produtiva exige não apenas trabalho sistemático, mas também acaso, inspiração e questionamento apaixonado, muito embora deixe claro que na era da "grande ciência" (big science) o ideal renascentista do homem enciclopedista foi extinto para sempre e substituído pelo novo ethos da "matéria-de-fato" [Sachlichkeit]. Aqueles que não podem vendar os próprios olhos e dedicar-se exclusivamente à tarefa em mãos devem ficar longe da ciência. É exatamente nesse sentido que Weber diz: "A renúncia da universalidade faustiana do homem. . . é uma condição de trabalho preciosa no mundo moderno”.6

Desta perspectiva de renúncia heroica, o personagem puritano da Ética Protestante aparece como o protótipo ideal do homem científico de Weber.7 Correlato ao empresário calvinista, o cientista deve ser um modelo de autodisciplina racional, não apenas em uma adesão escrupulosa à protocolos científicos, mas também no controle metodológico de seus valores e vieses, bem como na supressão de um vício moderno particular: certo gosto pela "auto-expressão". O cientista tem então que acumular; somente sua atividade assume a forma de conhecimento especializado e esotérico, a qual espera-se ser retomada no futuro por outros que irão avançar no trabalho. Essa produção acumulada de conhecimento pode teoricamente continuar ad infinitum. O conhecimento científico está sempre em processo de ser superado e qualquer um que tenha conseguido algo na ciência sabe que seu trabalho estará desatualizado em 100 anos - ou mesmo em 10.

Ainda que o cientista protestante persiga seu trabalho sine ira ac studio, sem entusiasmo e angústia existencial, a obsolescência inerente da ciência levanta a questão do significado da ciência como vocação. Mas no que diz respeito a este ponto, a ciência moderna permanece muda, segundo Weber. Os antigos gregos concebiam a ciência como um caminho para o "verdadeiro Ser" e, acima de tudo, para a "boa vida". Já os cientistas pioneiros da Renascença e os naturalistas protestantes acreditavam que a ciência era um "caminho para Deus". Mas quem, além de Hans Jonas e algumas "crianças grandes em cadeiras universitárias", ainda pode acreditar nisso hoje? A ciência minou a credibilidade dos sistemas religiosos, morais e metafísicos que anteriormente caracterizavam o mundo e, por extensão, também as vocações com sentido. Segundo Weber, a ciência é o "poder irreligioso" por excelência, que erradica todas as infames superstições em sua raiz. A ciência moderna é altamente autônoma e secular; diferenciada da ética, da religião, da política e assim por diante, ela repousa sobre um conjunto de valores que não pode ser justificada por seus próprios meios. A proposição de que "o conhecimento científico é digno de ser conhecido" não pode ser demonstrada cientificamente. Logo, do ponto de vista científico, os valores são realmente sem sentido - "do qual não podemos falar, devemos permanecer em silêncio".

O mundo moderno está desencantado. 'Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos.”8 Como resultado desta segunda crucificação do Senhor, "os valores mais sublimes e supremos se retiraram da vida pública".9 E com Deus, o conteúdo objetivo ou substancial da razão desapareceu também. Weber acha que sem um fundamento religioso os valores éticos se tornaram arbitrários. A possibilidade de um fundamento secular da ética é, então, negada. Se seguirmos os passos de Weber somos levados a acreditar que é um a priori dos tempos modernos que os fins e os valores últimos não possam ser determinados pela razão. Pois a razão tornou-se subjetiva e formal, um organon funcional da vontade de poder.10 Como a ciência, a razão não pode determinar os fins; contudo, assumindo que os fins são dados hipoteticamente, a razão pode determinar com precisão os meios necessários, prever as consequências não intencionais que o uso dos meios poderia acarretar, esclarecer o significado dos fins e demonstrar suas contradições internas. Em uma única frase: "Uma ciência empírica não pode ensinar a ninguém o que deve-se fazer, mas apenas o que pode-se fazer - e, sob certas circunstâncias, o que se quer fazer".11 Consequentemente, o cientista moderno encontra-se, segundo Weber, em uma situação comparável a dos calvinistas: assim como a certeza da escolha secreta por parte Deus é inacessível ao crente, é igualmente inacessível o conhecimento dos valores objetivos.

O problema da humanidade moderna não é tanto que as atividades diárias não tenham exatamente significado. O desencantamento do mundo afeta principalmente, como Ricoeur precisamente observou, o "senso de sentido", o sentido reflexivo e não o significado direto das atividades de alguém.12 A perda de sentido é uma perda de certeza moral, e o que perdemos em certeza, ganhamos, de acordo com Weber, em liberdade. Para ele, fins e valores são uma questão de fé, uma questão de escolha, jamais de ciência. Como defensor da ética da responsabilidade, é verdade que Weber faz a defesa da necessidade de esclarecimento dos valores últimos de uma pessoa e, também, a discussão lúcida das possíveis consequências que a adesão a esses valores implica. No final das contas entretanto, se a ciência pode ajudar nessa tarefa de esclarecimento analítico, não pode, em princípio, determinar a própria escolha, e assim o cientista é forçado a fazer uma escolha ao assumir um compromisso heroico com o valor irracional da ciência racional.13 É desse modo que as coisas encontram-se no mundo moderno. O destino é um fato - com implicações existenciais. "Deus morreu: agora queremos - que o super-homem viva".14 E para aqueles que não podem suportar o destino dos tempos modernos desencantados, Weber tem apenas um conselho oportuno para dar: retirar-se para uma ermida ou para algum santuário do idealismo.

Tudo isso soa um pouco como a famosa descrição de Kuhn da "ciência normal" como uma "resolução de quebra-cabeças" - mas com um tom existencialista e decisivo.15 E, de fato, se seguirmos a difícil separação categórica de Weber das ciências especializadas frente à filosofia, somos levados a acreditar que, diferentemente da humanidade, as ciências fixam-se apenas nos problemas que podem resolver. Outros problemas, como os fundacionais, de ordem ontológica e epistemológica, mas também aqueles que realmente importam, como os problemas socialmente e moralmente relevantes, que não são redutíveis à forma de quebra-cabeça, são desdenhosamente rejeitados por Weber como metafísicos, como se fossem de preocupação de outra disciplina ou, ainda, deixados para os profetas, visionários e outros ideólogos. "Qualquer um que queira visões deve ir ao cinema, e quem quiser sermões deve ir à capela."16



Contra Weber, devemos notar que o axioma da neutralidade axiológica é, em si mesmo, altamente irracional e transcientífico. A neutralidade axiológica não pode fundamentar-se por si própria. Weber, o "especialista não-especialista", sabe muito bem que o "ethos da bancada de trabalho" [ethos of the workbench] (Veblen) que ele defende é, em si mesmo, o resultado de uma posição específica no domínio da ética. Pode ou não ser verdade que valores objetivos existem - pessoalmente acredito que existam -, mas a liberdade em relação aos valores não depende disso. A ciência está isenta de valores na medida em que desconsidera voluntariamente todos os valores com o objetivo de se concentrar no mundo das coisas puras e de constituí-lo como um domínio teoricamente fechado ao objeto. A atitude teórica do naturalista não é a "atitude natural", afinal pressupõe, como diz Husserl, uma "época axiológica que despoja os objetos de seus predicados de valor".17 Como leitor acostumado das Críticas de Kant, Weber deve conhecê-la. Ele está ciente do fato de que seu "politeísmo de valores" representa uma Weltanschauung quase religiosa, e essa consciência pode explicar a natureza tortuosa de sua prosa. Como Fausto, podemos ver Weber lutando com sua dupla natureza. É possível sentir a frustração de uma consciência que sabe que seus valores mais profundos são de natureza religiosa, muito embora seus compromissos vocacionais estejam voltados para o diabo.


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