A ciência como vocação



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A filosofia marginal de Max Weber

Frédéric Vandenberghe1



Resumo: Na famosa palestra “A ciência como vocação” de 1918, Max Weber sai do armário filosófico. Uma leitura filosófica da sua sociologia, a qual revela sua filosofia nas margens de seus escritos sociológicos, mostra que sua sociologia se baseia numa visão de mundo [Weltanschauung] desencantada, bem como numa ideologia decisionista e numa epistemologia nominalista.

Palavras chave: Max Weber – desencantamento do mundo - nominalismo – relativismo – decisionismo – existencialismo.



As verdadeiras batalhas espirituais, as únicas que são significativas em nosso tempo, são aquelas que ocorrem entre uma humanidade que já entrou em colapso e uma que ainda está em pé, mas que está em luta para manter ou promover essa posição.2

Qual é a vocação da sociologia? Poderia ela ser uma ciência rigorosa, autônoma e livre de valores, distinta da ética, da política e da filosofia? Ou estaria destinada a perseguir as antigas e eternas questões acerca do "bom", do "belo e da "verdade" e do modo como podemos conhecê-los, só que agora por outros meios? Deveria a sociologia eximir-se destas questões por razões de cientificidade? E se sim, como a exclusão disciplinar dessas questões poderia ser cientificamente justificada? Estas são algumas das questões que quero responder neste texto. E na medida em que tais questões são essenciais e transcendem a sociologia, considerada basicamente como uma ciência autônoma e rigorosa da vida social, a resposta já está implícita no próprio questionamento. Vale dizer, a sociologia deve transcender-se e tornar-se teoria social. Teoria social é sociologia reflexiva, pois trata de desvendar de modo reflexivo os pressupostos epistemológicos, ontológicos e ideológicos da sociologia e reconstruí-los de um modo sistemático. Caminhando ao encontro de Simmel e de encontro a Weber, eu gostaria de aqui realizar a defesa de uma concepção abrangente de sociologia, a qual não exclui os problemas filosóficos que qualquer sociologia implicitamente pressupõe, mas que, contrariamente, os incluem de modo explícito. Logo, a tentativa cientificista de excluir essas questões filosóficas da sociologia é, na minha opinião, autodestrutiva. Toda tentativa de estabelecer a sociologia como uma disciplina autônoma e auto-referenciada, irá, mais cedo ou mais tarde, transformar-se numa "contradição performativa", já que o próprio ato de fundamentação é necessariamente repleto de implicações filosóficas e políticas. Certamente alguém pode tentar defender uma concepção estreita de sociologia e reivindicar para a disciplina a exclusão de problemas metateóricos; contudo, se assim o fizer, terá que refazer todo o caminho e excluir Marx, Weber, Durkheim e Simmel do cânon sociológico. Chegaríamos, assim, numa conclusão paradoxal: uma sociologia que quer estabelecer-se como uma disciplina científica autônoma não pode mais ancorar-se em seus pais fundadores, perdendo a própria base em que se sustenta.

Neste artigo, Max Weber e Georg Simmel serão considerados como fundadores "ideal-típicos" da sociologia. Se Simmel, por um lado, reconhece explicitamente a legitimidade das questões epistêmicas e metafísicas da disciplina, Weber, por outro, as nega explicitamente. Todavia, na medida que o estabelecimento de qualquer disciplina é essencialmente um ato filosófico com implicações políticas (ou vice-versa), é possível expor os pressupostos ontológicos, epistemológicos e ideológicos latentes os quais tal ato implica. Embora tal tentativa, no caso de Max Weber, possa parecer paradoxal à primeira vista, uma leitura filosófica da sua sociologia revelaria claramente sua filosofia nas margens de seu texto. Como veremos, a "filosofia marginal" de Weber é essencialmente nominalista. Já sua visão de mundo [Weltanschauung] nominalista é expressa tanto na sua metafísica política do mundo moderno quanto em sua epistemologia das ciências sociais. O ponto fundamental entretanto, não é somente descobrir a metafísica oculta, mas explorar criticamente suas implicações políticas e epistêmicas.



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