A causa das coisas



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A CAUSA DAS COISAS
Miguel Esteves Cardoso
1ª EDIÇÃO - DEZEMBRO, 1986

2ª EDIÇÃO - JANEIRO, 1987

3ª EDIÇÃO - FEVEREIRO, 1987

4ª EDIÇÃO - ABRIL, 1987
© ASSÍRIO & ALVIM

E MIGUEL ESTEVES CARDOSO


COOPERATIVA EDITORA E LIVREIRA, CRL

RUA PASSOS MANUEL, 67-B, 1100 LISBOA

EDIÇÃO N° 223, DEZEMBRO DE 1986 DEPÓSITO LEGAL N° 13 230/86
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
A CAUSA DAS COISAS

4ª EDIÇÃO
assírio & alvim
PREFÁCIO
É costume, quando se publicam colectâneas de artigos de jornal, dizer que se «hesitou muito», que os textos pouco valem e que «o tempo dirá» se há ou não desculpa para o que se fez. Tecem-se depois elevadas considerações sobre a relação entre o Efémero e o Eterno, entre o Jornalismo e a Literatura e outras coisas igualmente despropositadas para prefácios. Estas manobras são, o mais das vezes, defesas modestas, destinadas a precaver o autor contra as consequências críticas (e comerciais) da iniciativa. Parece-me óbvio que, quem publica um livro acha que vale a pena publicá-lo e é por isso que me dispenso de todas as humilhações rituais. Dentre mais de duzentos artigos escritos para o «Expresso», escolhi e revi cerca de cem, porque acho que ainda se aguentam mais uns tempos.

Dito isto, é necessário recordar que os artigos agora reunidos foram redigidos para serem lidos um de cada vez, com descanso intervalar de seis dias. Lê-los de corrida é, sinceramente, insuportável. Não é por modéstia, mas para me defender do cansaço alheio, que recomendo que sejam lidos levemente.

É claro, também, que os propósitos iniciais de uma coluna nunca correspondem ao destino que acaba por ter. Quer-se ser sério e há pessoas que só querem rir. Quer-se escrever sobre causas e há pessoas que só querem ler sobre coisas. É por isso que nada se deve dizer sobre intenções - a liberdade da leitura é sagrada, mas a da escrita também. Basta-me dizer que muitas vezes escrevi só por escrever, inventando coisas que tapassem os buracos que abrem as semanas nos espaços «regulares» de um jornal. Com uma ou outra excepção, porém, os artigos que agora publico foram escritos porque eu sinceramente achei que tinha qualquer coisa para dizer.

Finalmente, a natureza de uma coluna semanal leva o autor a contar com a colaboração de muitas pessoas. A autoria dilui-se assim entre todos aqueles que me ajudaram a escrever «A Causa das Coisas». Não é um agradecimento vão. No «Expresso» e fora do «Expresso» recebi mais do que alguma vez poderei retribuir. É por serem tantas as pessoas a quem deveria dedicar este livro - e por ser pretensioso dedicá-lo a todos - que eu não o dedico a ninguém.

Miguel Esteves Cardoso
ALCATIFAS
Um dos grandes equívocos da segunda metade do século XX foi, sem dúvida alguma, a alcatifa.

As alcatifas são, sinteticamente, expansões lanudas de grande monotonia, e vulgaridade. Privam os pés de contactar directamente com a dura realidade do soalho, habituando o Homem a uma falsa impressão de onde pisa, criando nele o culto fútil e amaricado do «fofinho». Fomentam toda a espécie de mitos irrisórios («a cinza faz bem às alcatifas», «uma alcatifa é uma forma de poupar energia», etc.) e conduzem a certas práticas que nos hão-de envergonhar diante das gerações vindouras. (Você, caro leitor, a olhar compenetrado para o chão e a dizer sentenciosamente «Esta alcatifa está a precisar de um shampooing»...).

«Shampooing»! Como todos os gerúndios anglo-saxónicos, cobre-se de ridículo na boca de um português. Outro gerúndio semelhantemente inane é aquele do «brushing» que se pronuncia em salões de «coiffure» como se se tratasse de um termo altamente técnico, aprendido durante um seminário restrito com Dusty Fleming: «Vamos avançar com um bocado de brushing, está bem?» (tradução: «Vamos avançar com um bocado de escovando, está bem?»). E a analogia capilar não acaba aqui.

As alcatifas, uma vez que começam a ratar e a agonizar, transformam qualquer mulher ou homem bem pensante num histérico estagiário de cabeleireiro. Existem até «pentes» de alcatifa, para catar migalhas de bolo, desembaraçar pêlos difíceis, fazer o risco ao meio, e, de um modo geral, uma escusadíssima figura de parvo. Tal como as pessoas, tendem para a calvície precoce e trazem consigo panóplias de produtos especiais, parecidos com «Pantènes», destinados a aliviar o sofrimento do bicho e a angústia nervosa do senhor.

As alcatifas são quase sempre «ideias» de que as pessoas, mais tarde, amargamente se arrependem. Ao contrário do que acontece com os tapetes, não existe qualquer mercado interessante de alcatifas em segunda mão.

Hoje, felizmente, tem-se vindo a esboçar um movimento de reacção ao dogma da alcatifa. O regresso à clareza do tapete e do chão encerado é um dos mais encorajadores sinais de saúde mental dos últimos tempos. Pouco a pouco, as salas portuguesas irão deixando de parecer quartos de hotel. Têm-se arrancado do soalho já bastantes daquelas peles carcomidas e desbotadas que

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«absorvem as gorduras e os derrames» (entre outras práticas inigiénicas e discutíveis) com uma violência e um vigor que dão gosto ver. Posto o chão a claro, como Deus entendeu que havia de ser, abre-se uma lata de «Encerite», arregaçam-se as calças ou as saias, e vai de aplicar uma boa camada de cera sobre a madeira sequiosa e honesta que grita porosamente, desesperadamente, por ela.

Desaparece imediatamente aquele cheiro um pouco podre de sala de conferência às sete da manhã, causa de tantas alergias e ligeiras náuseas inexplicáveis da nossa contemporaneidade. Com grande espanto, aprende-se que um soalho encerado - e não a «milagrosa» alcatifex - é ainda a melhor defesa contra as nódoas e a maldade inata das crianças que gostam de empurrar plasticina e esparguete para dentro das fibras.

Põe-se-lhe um tapete em cima. Um tapete é uma coisa que se pode enrolar e pendurar e bater e vender e transportar. Tem sempre um formato sensato. Tem sempre a sua personalidade. Envelhece com elegância. Daqui a quinhentos anos, quantas alcatifas (mesmo persas) se hão-de ver nos antiquários especializados no século XX?

Por baixo de cada alcatifa - convençamo-nos - há um soalho sufocado que, com a maior das dignidades, grunhe e geme, implorando pela sua liberdade. A madeira não se fez para assim tão rudemente se tapar e asfixiar. Consente quando muito a dança deslizante de um tapete, porque consegue respirar cutaneamente, pelos cantos da sala. Que diferente é esta terna interacção da ganância dominadora das alcatifas, causadoras de histeria nas donas de casa se acaso fica «um bocadinho de fora», no «cantinho», onde estão os «preguinhos» que «até nem ficam mal, porque dão com a cor da alcatifa, não achas, querido?».

A reacção contra as alcatifas tem sido acompanhada por uma maior disposição, de parte da juventude, em não estar com problemas e complexos cada vez que urge um indivíduo ajoelhar-se com um pano na mão e pôr-se a dar cera como se não houvesse Amanhã. Aprendem o que este rito, de comunhão com o chão que se pisa, tem de telúrico e de animicamente satisfatório. Encostam o ouvido ao soalho encerado, só pelo prazer de ouvi-lo zunir.

As alcatifas têm os dias contados nos lares sérios de Portugal. Ainda estaremos certamente todos vivos no dia, não muito distante, em que a mera menção da palavra «alcatifa» será suficiente para despoletar um rude alarde de troça e de gargalhada. Estamos a sair da longa noite fascista do regime do «matte», das fotografias baças, dos filmes com demasiado grão, dos sapatos inengraxáveis e dos móveis de pinho sem verniz. O brilho e a cintilância ameaçam regressar. A «Encerite» aí está para os saudar.






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