A biblioteconomia e a “construção do social”* Library Science and the “Social Construction” La bibliotecología y la “construcción de lo social”


Relações biblioteconômicas com as ciências sociais e humanas



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Relações biblioteconômicas com as ciências sociais e humanas

Alfaro-Lopez (2010), partindo das ideias de Gaston Bachelard (2006), fundamenta a construção de seu pensamento, discorrendo sobre a importância de a Biblioteconomia “libertar-se” da epistemologia positivista indo em direção a epistemologia construtivista e a consolidação de uma Biblioteconomia científica e autônoma. Segundo o autor, o positivismo, no momento de formação da Biblioteconomia, possibilitou a sustentação de suas práticas, conformando um campo de conhecimentos centrado nas regularidades dos fenômenos com o foco nos fatos empíricos observáveis. Devido ao nascimento das bibliotecas públicas, no século XIX, do contexto de uma sociedade industrial, as bibliotecas acabaram por se circunscrever em uma necessidade social, numa “vontade de serviço” pautado em experiências, no conhecimento empírico e técnico. Logo, o positivismo, naquele momento, foi uma importante base epistemológica à Biblioteconomia, mas tem se tornado num entrave para o desenvolvimento teórico e conceitual do campo desde as mudanças da sociedade a partir do século XX.

Para esse autor a postura da biblioteca como sendo da ordem do concreto, do imediato, da atividade cotidiana, arraigado no pensamento positivista e funcionalista e voltado às funções e eficiências dos processos, não tem deixado pensar a biblioteca enquanto conceito abstrato, convertendose num obstáculo epistemoló gico, cuja superação se daria por meio de uma ruptura e conformação de um novo espírito científico. Nessa direção, Alfaro-López (2010) defende que a Biblioteconomia precisa ser guiada por problemas, no sentido de que deve ser colocado ao campo, sempre perguntas ao seu próprio desenvolvimento científico. Este autor, seguindo o pensamento de Bachelard, da ciência como desdobramento problematizante, também destaca a construção do objeto, visto como uma construção discursiva, rompendo com a ideia do objeto do positivismo, sendo aquele da ordem do observável e advindo de etapas sucessivas: observação, hipótese, experiência, resultado, interpretação e conclusão (Alfaro-López, 2010).

A consciência da construção discursiva do objeto, de maneira não neutra ou imparcial, bem como a evidência de possíveis erros é desvelada. Segundo Alfaro-López (2010) a ciência avança retificando os erros, os quais fazem parte da construção do conhecimento, portanto, não são escondidos como queria o positivismo. Outra crítica posta e que fundamenta essa base construtivista da ciência é a defesa da realidade como sendo também um processo de construção. A realidade não é um dado, nem se atém aos fatos empíricos, mostra-se diante dos problemas que são colocados, sendo necessário tecer perguntas, as quais se constituem, segundo Alfaro-López (2010), no guia da ação à investigação. Ademais, a questão da “representação social” é colocada pelo autor, seguindo o pensamento de Jean Claude Abric que rompe com a noção de mundo exterior e interior do indivíduo, com a relação sujeito e objeto como sendo separáveis e de uma realidade objetiva. Assim, a realidade é vista pelos autores como representação da qual se apropriam e estruturam os indivíduos, não sendo um reflexo da realidade.

Interessante destacar ainda a concepção de campo, que revela o autor como espaço cognitivo e de construção, a saber: “campo não é uma construção etérea e que se desenvolve no vazio, pelo contrário, é um campo do conhecimento que se encontra imerso no espaço social. E a relação entre campo e espaço social é de caráter dialético” (Alfaro-López, 2010, p. 62). Ao discorrer sobre o campo, este autor cita o sociólogo Pierre Bourdieu que escreveu sobre campo científico como sendo um espaço de luta e de posições. Um jogo marcado por interesses que, segundo Alfaro-López (2010), não pode perder de vista o entorno social, isto é, os conhecimentos desenvolvidos precisam ser divulgados à sociedade, para além da comunidade científica. Essa divulgação garantiria, além do desenvolvimento da ciência, considerando a dinâmica do conhecimento, em responder perguntas, que geram mais perguntas e respostas, o reconhecimento da sociedade sobre determinado campo, o isolamento do conhecimento e da sociedade seria prejudicial para ambos.

Na direção de um distanciamento do âmbito concreto, da biblioteca reduzida às práticas, da visão da biblioteca para além dos acervos, dos registros do conhecimento, e do próprio edifício como espaço demarcado é também corroborado por David Lankes. Assim, para este autor, as bibliotecas são uma plataforma para que a comunidade crie e compartilhe conhecimentos, uma biblioteca da comunidade ao invés de uma para a comunidade. Lankes (2015, p. 36) aborda que, a centralidade da ação da biblioteca deve recair sobre os processos de aprendizagem e do conhecimento, tendo como missão “melhorar a comunidade onde está inserida, facilitando a criação de conhecimento”. A biblioteca é vista também como um centro de aprendizagem, um espaço social, um lugar de ideias, de criação e, sobretudo de interação dinâmica entre a própria configuração sócio-cultural e processos psicológicos de cada um.

A conversa assume também importância particular, pois é a partir dessa ação entre duas ou mais pessoas que se comunicam, ouvindo, escutando e falando, que o conhecimento é construído. Sob essa perspectiva da teoria da conversação de Gordon Pask, e abordada no livro The Atlas of New Librarianship (Lankes, 2011), as bibliotecas se transformariam um ambiente capaz de moldar os diálogos para um amanhã melhor. Desta maneira, Biblioteconomia não se baseia em livros ou artefatos, mas nos processos de compreensão do comportamento e da aprendizagem, transcendendo as ferramentas e a organização da informação com um fim em si mesmo. Logo, percebe-se que na construção do pensamento biblioteconômico, o conhecimento é figura central, o qual não é a priori registrado, medido, estático, mas intimamente ligado ao sujeito, a uma construção advinda de um processo ativo. As bibliotecas têm, portanto, como missão facilitar a criação do conhecimento através de quatro modos: fornecer acesso; fornecer ca pacitação; proporcionar ambiente seguro; motivar para aprender (Lankes, 2015).

Inferese, assim, que essa postura teórica tem como suporte a teoria cognitiva do construtivismo, o qual postula que o conhecimento é criado dentro de uma pessoa e não a partir do exterior, tendo como base a interpretação das experiências dos sujeitos. Em especial, a construção social desempenha um papel importante, já que apresenta o conhecimento vindo de dentro para fora da pessoa, interagindo socialmente com outras pessoas. Nessa direção, convoca-se Lev Vygotsky, um dos fundadores e representantes do sócio-construtivismo dentro das teorias educacionais, em especial da aprendizagem, que defendeu sobre o desenvolvimento cognitivo do sujeito. Sendo assim, o sujeito e o processo de construção do conhecimento estão vinculados socialmente, interagindo com outros indivíduos e com o meio. A interação social que requer, pelo menos, duas pessoas para que haja troca de experiências e de conhecimentos; a aprendizagem é uma experiência social, mediada pela utilização de instrumentos e signos.

A motivação é também outro importante elemento vinculado às teorias da aprendizagem. Os bibliotecários, integrantes da comunidade devem além de facilitar, empoderar, advogar, inspirar os integrantes da biblioteca e da comunidade. Ambos (bibliotecários e usuários) são membros da sociedade, de modo que a ação do bibliotecário a beneficiará, tendo em vista que uma sociedade democrática requer cidadãos bem informados, proativos e participativos na vida política. Segundo Lankes (2011) a presença da biblioteca também se faz a partir da ideia do sociólogo Ray Oldenburg, que define três espaços: sendo o primeiro onde você vive, a casa, por exemplo; o segundo espaço, onde você trabalha, seu escritório; e, o terceiro espaço, onde você se sente parte da comunidade, no caso, a biblioteca. A integração de uma comunidade, segundo Lankes (2015), reflete inclusive na constituição dos acervos das bibliotecas, que devem estar dirigidos à comunidade para a sua construção, criando memórias locais e “acervos vivos”, como os áudios e gravações dos indivíduos, demonstrando o quanto as comunidades são ricas e multifacetadas.

Outro autor e sob outras perspectivas, Brown-César (2000), salienta que, o usuário do sistema de gestão documental é um sujeito histórico, um seraqui que tem sua história e é considerado pela sua historicidade, tendo como base o pensamento de Heidegger. Por outro lado, Rendón-Rojas (2005) que também trabalha com o pensamento deste filósofo vai além ao dizer que a instituição informativa documental seria capaz de promover a autenticidade do sujeito inautêntico, bem como desalienar esse sujeito, por meio da desobjetivação e autoconhecimento do espírito humano, uma postura que Brown-César (2000) não considera. Para este autor, livros ruins, por exemplo, são capazes de alienar, considerando que nem sempre os livros são bons, já a autenticidade do sujeito se dará apenas mediante a morte. Ademais, conforme o próprio Heidegger essa existência autêntica é a consciência de um serpara-amorte, somente assumindo essa possibilidade o homem encontra seu ser autêntico – a morte é uma possibilidade imanente, uma iminência, que o seraí deve assumir, sendo incondicionada e insuperável, caminhando rumo a um ser-para-o-fim (Reale & Antiseri, 2004).

Apesar dessa aproximação de Brown-César (2000) a essa corrente de pensamento, suas ideias encontram aporte na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, compreendendo a biblioteca como um Sistema de Gestão Documental, que é delimitado a partir de três funções básicas: integração, representação e disposição; caracterizando seu pensamento como sendo mais voltado mais para um ordenamento do social (Tanus, 2016). Todavia, Rendón-Rojas (2005) assume mais detidamente a hermenêutica de Heidegger como base à construção teórica e filosófica da Biblioteconomia. Este autor trabalha com a ideia central de que o homem se caracteriza por ser um projeto que se realiza em si mesmo, e configura a biblioteca como uma instituição informativa documental que funcionaria como um dos elementos auxiliadores no vir a ser desse sujeito. O ser humano chega a sua existência autêntica a partir da linguagem, e a biblioteca proporciona esse desvelamento através dos documentos. A biblioteca, para Rendón-Rojas (2005), é, portanto, mais que um armazém de livros sem esperança de ser consultado, é um espaço que propõe condições necessárias à satisfação das necessidades dos usuários (necessidades ontológicas) e permite a desobjetivação da palavra escrita e um autoconhecimento do espírito humano. Ainda, segundo o autor, quando um usuário busca informação ele não o faz para “encher um vazio”, mas sim em um sentido metafórico, “encher-se a si mesmo” (Rendón-Rojas, 2005).

Os bibliotecários têm como missão fazer com que os usuários acessem o mundo da informação, sendo vistos como agentes ativos e participantes do processo de desenvolvimento do ser, do sujeito, do usuário (Rendón-Rojas, 2005); ele é profissional que desempenha uma atividade dotada de sentido, de vontade, de subjetividade, sendo que sua ação dá vida à instituição. Destarte, é um ator e não um elemento passivo dentro do sistema de comunicação social, que faz parte e requer outro sujeito para um diálogo intersubjetivo. Embora, Rendón-Rojas (2005) não cite Max Weber, pode se relacionar a figura do bibliotecário ao do ator, com a ideia do indivíduo como agente social que dá sentido a sua ação. A ação social weberiana é guiada pelo sujeito que age segundo motivos, os quais são dotados de sentidos e efeitos, não existindo imparcialidade ou neutralidade nas ações. O fato de agir levando em consideração o outro dá um caráter social a toda ação humana, o que Rendón-Rojas (2005) destaca a partir do diálogo com o outro. Ademais, o sujeito não existe sozinho, já que sua relação com o mundo real e com o mundo da informação se torna indispensável à compreensão do pensamento de Rendón Rojas.

Em particular, o mundo da informação se refere ao mundo em que se encontra o sujeito com sua intencionalidade e contexto, influindo de maneira determinante na construção do mundo da informação. A informação que está vinculada a este mundo é o conceito de informação pragmática (relação advinda do sujeito com sua intencionalidade mais o contexto), isto é, de uma informação que é construída pelo sujeito a partir do processo de síntese da sua estrutura cognitiva e dos dados que recebe. A materialização da informação se dá pela via dos documentos, que denotam “intenções da alma”, os quais convertem os usuários ao mundo daquela, estabelecendo uma relação íntima com o ser, no sentido de sua formação e da memória social, que proporciona identidade ao ser e a sociedade, o documento como um patrimônio cultural. Em síntese, o mundo bibliotecológico possibilita ao usuário que se encontre como sujeito, tornando-se um ser autêntico, afastando da alienação, e promovendo um autoconhecimento vindo da relação com os documentos acessados no mundo da informação (Rendón-Rojas, 2005).




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