A antiga Índia



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A antiga Índia


Os relatos tradicionais sobre Shakyamuni (século VI-V a.C.), o Buddha histórico, geralmente dividem sua vida em oito ou doze "grandes atos". Estes atos foram realizados não apenas por ele, mas por todos os seres iluminados do passado, e serão realizados também por todos os seres iluminados do futuro:

  1. existir no paraíso celestial de Tushita;

  2. descer de Tushita para o continente de Jambudvipa, neste mundo [I];

  3. durante um sonho, entrar no ventre da mãe como um elefante [II];

  4. nascer como um príncipe, dando sete passos em cada direção [III];

  5. ter proficiência nas artes mundanas, como a escrita, a matemática, arco-e-flecha, ciências, artes de combate e etc.

  6. engajar-se nos esportes, desfrutar de consortes, casar-se e viver em  palácios;

  7. abandonar a vida de príncipe, deixar o lar e se auto-ordenar como um monge errante [IV];

  8. praticar as austeridades do ascetismo;

  9. à noite, derrotar as hostes de Mara, o demônio da ignorância [V];

  10. pela manhã, atingir a iluminação, o despertar [VI];

  11. girar a roda do Dharma, isto é, dar ensinamentos [VI];

  12. alcançar o pari-nirvana, a liberação final [VIII].

Histórias sobre 550 de suas vidas são relatadas em contos conhecidos como Jatakas, registrados em antigas escrituras escritas no idioma páli e também no Jataka-mala, escrito em sânscrito por Aryasura. Após praticar a virtude durante milhões de anos, este bodhisattva — ser da iluminação — renasceu em Tushita, o paraíso celestial dos futuros seres iluminados. Seu nome era Sumedha (ou Shvetaketu); quando chegou o momento apropriado, ele desceu do paraíso de Tushita para renascer como um príncipe na Índia. Ele seria conhecido como Siddhartha Gautama, Ikshvaku, Suryavamsa, o grande Shramana (renunciante), Buddha Shakyamuni, e este foi o seu último renascimento.

cem mil eras, um brâmane rico, ilustre e honrado [chamado Sumedha] vivia na grande cidade de Amara. Um dia ele se sentou, refletindo sobre a miséria do renascimento, da velhice e da doença, e exclamou: "Há, deve haver uma salvação! É impossível que não haja! Procurarei e encontrarei o caminho que me libertará da existência." Assim, ele se retirou para o Himalaya e como ermitão viveu numa choupana, onde alcançou grande sabedoria. Enquanto esta ali, mergulhado no êxtase, nasceu um vitorioso [ser iluminado, um Buddha chamado] Dipamkara. Aconteceu que, prosseguindo seu trajeto, esse Buddha foi ter perto de onde vivia Sumedha; ali havia homens preparando um caminho para seus pés pisarem. Sumedha juntou-se aos outros nesse trabalho e quando o Buddha [Dipamkara] se aproximou, ele se deitou na lama dizendo para si mesmo: "Possa eu apenas protegê-lo da lama, grande mérito resultará para mim."

Enquanto estava deitado ali lhe veio à mente: "Por que não expulso todo o mal que me permanece dentro de mim e não entro no nirvana? Mas que eu não faça isso só em meu benefício; será melhor que algum dia eu também adquira onisciência e em segurança conduza uma multidão de seres no barco da doutrina, sobre o oceano do renascimento, até a praia mais longínqua".

Dipankara, conhecedor de tudo, parou ao seu lado e proclamou-o para a multidão como alguém que mais tarde iria tornar-se um Buddha, especificando o lugar de seus nascimento, sua família, seus discípulos e seus descendentes. As pessoas se rejubilam com isso, ponderando que, ensinadas por esse outro Buddha, teriam novamente uma boa oportunidade de aprender a verdade, pois a doutrina de todos os Buddhas é a mesma. toda a natureza, então, mostrou sinais e presságios em testemunho da iniciativa e da dedicação de Sumedha; todas as árvores deram frutos, os rios ficaram tranqüilos, uma chuva de flores caiu do céu, os fotos do inferno se apagaram. "Não volte para trás", disse Dipamkara. "Vamos! Para a frente! Sabemos disso com o máximo de certeza; seguramente serás um Buddha". Sumedha decidiu, então, satisfazer as condições de um Buddha — perfeição nas dádivas, na observação dos preceitos, na renúncia, na sabedoria, na coragem, na paciência, na verdade, na determinação, na boa vontade e na indiferença. Começando então, a cumprir essas dez condições da busca, Sumedha voltou para a floresta e viveu lá até a morte.

Depois disso ele nasceu de incontáveis formas — como homem, como deus, como animal, e em todas essas formas ele não saiu do caminho planejado, e assim se diz que não existe uma partícula do planeta onde Buddha não tenha sacrificado sua vida em benefício das criaturas.

(Ananda Coomaraswamy, Mitos Hindus e Budistas)

Sumedha manifestou-se vida após vida como um bodhisattva, praticando compaixão, vontade, generosidade e humildade. Muitas vezes ofereceu sua vida e seu corpo para benefício e alimento de outros seres. Na última vida como bodhisattva, [quando ele então se chamava Santusita], manifestou-se no mundo dos deuses da felicidade [isto é, no paraíso chamado Tushita]. Com sua visão abrangente, esses deuses perceberam o sofrimento dos seres humanos, presos à impermanência, insatisfatoriedade, doença, decrepitude e morte. Então cantaram ao bodhisattva, pedindo que fosse ao mundo dos humanos para socorrê-los em suas aflições.

O bodhisattva concordou e disse que completaria a profecia de Dipamkara, tornando-se o Buddha Shakyamuni. Nessa ocasião, voltou-se para o bodhisattva Maitreya e disse-lhe que, quando os ensinamentos que ele desse no reino humano desaparecessem, seria a vez de Maitreya manifestar-se como Buddha. A seguir, o bodhisattva desceu do céu dos deuses mundanos por uma escada luminosa, acompanhado de uma comitiva.

Nesse momento, no reino dos Shakyas, na Índia, a rainha Maya teve um sonho, no qual um elefante branco penetrava em seu ventre pelo lado direito. Ela acordou o marido, o rei Shuddhodana, e lhe disse: "Estou grávida". O príncipe Siddhartha nasceu apresentando sinais extraordinários.

(Padma Samten, Meditando a Vida)

Em sua última vida, como o príncipe Siddhartha Gautama, ele gerou a intenção de alcançar a iluminação, acumulou mérito e sabedoria, finalmente atingiu o estado de Buddha e "girou a roda do Dharma", isto é, transmitiu os ensinamentos que levam à liberação. A história de sua vida foi registrada em textos escritos em páli (nos Nikayas, no Maha-vastu) e em sânscrito (no Lalita-vistara Sutra, no Buddha-charita do poeta Ashvagosha).

Uma possibilidade é a de ver o Buddha como uma figura histórica particular, uma pessoa que viveu no que é hoje o norte da Índia, no V e VI séculos a.C. e que passou por um despertar transformador aos trinta e cinco anos de idade. Podemos nos remeter de uma forma muito humana e histórica, compreendendo suas lutas, sua busca, sua iluminação, da perspectiva de um ser humano em relação a outro. Outro nível de relacionamento é o de ver o Buddha como um arquétipo fundamental da humanidade; isto é, como a manifestação plena da natureza do Buddha, a mente que está livre de aviltamento e distorção, compreendendo sua história de vida como uma grande jornada representando alguns aspectos arquetípicos básicos da existência humana. Olhando a vida do Buddha dessas duas maneiras, como um personagem histórico e como um arquétipo, torna-se possível ver o desenrolar dos princípios universais dentro do conteúdo particular de sua experiência de vida. Podemos então ver a vida do Buddha não como a história abstrata e remota de alguém que viveu há 2.500 anos, porém como uma que revela a natureza do universal dentro de todos nós. Isto torna-se um meio de entender nossa própria experiência num contexto maior e mais profundo, um que conecta a jornada do Buddha à nossa própria.

(Joseph Goldstein, Buscando a Essência da Sabedoria)




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