A alma do mundo susana tamaro tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo



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A ALMA DO MUNDO - SUSANA TAMARO

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

Editorial PRESENÇA
1ª edição, Lisboa, janeiro, 1997
2ª edição, Lisboa, Setembro, 1997
3ª edição, Lisboa, Abril, 1998
Não te admires por eu dizer: deveis nascer de

novo. O vento sopra onde quer: e tu ouves a sua

voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde

vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.


São João 3, 1-9

FOGO


I

Ao princípio, era o vazio. Depois o vazio contraiu-se, ficou

mais pequeno do que uma cabeça de alfinete. Teria sido por

vontade sua ou alguma coisa o obrigou? Ninguém pode saber,

o que está demasiado contraído acaba por explodir, com raiva,

com furor. Do vazio nasceu um clarão intolerável, dispersou-se

no espaço, lá em baixo já não havia trevas, havia luz. Foi

da luz que proveio o universo, estilhaços alucinados de

energia projectados no espaço e no tempo. Correndo, correndo,

formaram as estrelas e os planetas. O fogo e a matéria.

Poderia

ter bastado, mas não bastou. As moléculas de aminoácidos



continuaram, milénio após milénio, a modificar-se

constantemente, até que a vida nasceu: seres unicelulares

microscópicos

que precisam de uma bactéria, para respirar. Foi daí, desses

charcos primordiais, com um movimento progressivo de ordem,

que nasceram todas as formas vivas: os grandes cetáceos

dos abismos e as borboletas, as borboletas e as flores que

lhes


albergam as larvas. E o homem que, em vez de andar com

quatro patas, anda com duas. De quatro para duas tudo muda,

o céu fica mais perto, as mãos ficam vazias: quatro dedos

móveis e um polegar oponível podem agarrar tudo. E é a

liberdade, o domínio do espaço, a acção, o movimento, a

possibilidade de gerar ordem ou desordem. Entretanto, o

universo abre-se, as estrelas estão cada vez mais longe,

correm
para as extremidades, como bolas de bilhar. Tudo isto foi

feito

por alguém ou fez-se por si, com a inércia de uma avalancha?



Dizem que a matéria tem as suas leis, àquela temperatura,

naquelas condições, só podia fazer o universo. O universo e a

minúscula galáxia que tem suspenso no seu interior o jardim

florido da Terra. Uma centena de espécies de plantas e de

animais já teria sido mais do que suficiente para transformar

o

nosso planeta num planeta diferente dos outros. Em vez de



formas de vida diferentes, há dezenas e dezenas de milhar,

nenhum homem poderia numa só existência aprender a

reconhecê-las a todas. Desperdício ou riqueza? Se a matéria

tem as


suas leis, quem é que fez as leis da matéria? Ninguém? Um

Deus da luz? Ou um Deus da sombra? Que espírito anima

quem, ao planear uma coisa, planeia também a sua destruição? E

depois, que importância pode isso ter? Estamos no

meio, constantemente esmagados entre os dois princípios.

Uma forma fugaz de ordem: as células agregam-se no nosso

corpo, no nosso rosto. O nosso rosto tem um nome, o nome

tem um destino. O fim do percurso é igual para todos, a

ordem dispersa-se, converte-se em desordem, os enzimas partem

com as suas mensagens e já não encontram ninguém para

os receber. Mensageiros de um exército que já não existe em




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