3 Planejamento de comunicação: contribuição da teoria de relações públicas


Relações Públicas: formação de um campo



Baixar 85 Kb.
Página2/5
Encontro28.11.2019
Tamanho85 Kb.
1   2   3   4   5
Relações Públicas: formação de um campo

Na década de 1980, a comunidade de relações públicas no Brasil – profissionais, estudantes e pesquisadores – assistiu aos debates sobre a prática profissional, tendo como foco a noção de que RP não visaria construir uma mera “imagem”, ao modo de uma falsa representação das organizações, mas construir “conceito”, ou seja, um processo no qual existiria uma correspondência real entre a organização de que se fala e a idéia que dela poderia ter a opinião pública. Quando a idéia que se tem de algo não corresponde de fato às suas qualidades se diz que há uma mera “imagem”, e não um conceito.

O distanciamento teórico que hipoteticamente separaria o discurso de relações públicas do discurso publicitário seria justamente esse: pelo menos na perspectiva acadêmica, as relações públicas historicamente vieram se esforçando em elaborar um modelo de comunicação que prega a informação como princípio do estabelecimento da compreensão entre organizações e sociedade, com base em troca de informações idôneas e discussão racional. Ou seja, o campo de relações públicas, pelo menos em suas discussões internas, vieram construindo um discurso de relativa autonomia ao elaborar um modelo teórico através do qual os modelos comunicacionais pudessem marcar diferença com relação a discursos e modelos hegemônicos no campo maior da comunicação social.

No campo específico das relações públicas, o modelo teórico que veio sendo discutido tinha a característica de ser um discurso moldado pela emergência do fenômeno da opinião pública e dos diferentes públicos que se anunciavam como a própria crítica social nas mais diversas instâncias de organização da sociedade civil. Tais fenômenos se relacionam com os mais distintos processos de sociabilização e, de forma mais precisa, pelos processos de sociabilização midiatizadas. O que deve ser evidenciado, quando se trata de descrever os modelos teóricos que vieram sendo construídos no campo da comunicação, é a relação de força que os mais diversos grupos sociais vêm travando historicamente com distintas organizações públicas ou privadas.

A emergência e a consolidação de um modelo discursivo próprio das relações públicas se nota na definição da atividade. Os estudos neste campo reúnem inúmeras concepções, a maior parte originada no meio profissional, incluindo definições nos campos popular e erudito, nacionais e internacionais. Na definição oficial da ABRP (Associação Brasileira de Relações Públicas), o que se percebe é que, historicamente, a conceituação da área tendeu a promover um imaginário social harmônico em meio às tensões econômicas, sociais e culturais.
Entende-se por relações públicas o esforço deliberado, planificado, coeso e contínuo da alta administração, para estabelecer e manter uma compreensão mútua entre uma organização, pública ou privada, e seu pessoal, assim como entre essa organização e todos os grupos aos quais está ligada, direta ou indiretamente”. 1
Roberto Porto Simões faz a seguinte afirmação quanto a essa corrente originada numa perspectiva psicossocial, e que historicamente tem acompanhado o desenvolvimento da área:
Embora muito contestada por todos que se preocupam com os aspectos éticos das atividades humanas, a corrente que atribui às relações públicas a função de formar imagem é muito aceita e conhecida principalmente por leigos no assunto. As objeções a quem segue essa trilha encontram-se no argumento de que há, por parte dos profissionais, esforço para produzirem-se imagens de uma realidade inexistente ou o uso de artifícios cristalizadores da opinião púbica”. 2
A idéia de “formar imagem” liga-se historicamente à idéia de persuasão, ou seja, coloca a atividade de RP bem próxima da de publicidade e propaganda, não havendo, nesse caso, nenhum afastamento entre as duas áreas. O desenvolvimento dos debates sobre os usos da comunicação nas organizações provocou certamente um mal-estar teórico, mas teve como conseqüência outros direcionamentos: relações públicas visam a formar atitude, visam a obter a boa vontade e visam a formar a opinião pública. Ou seja, tudo indicava para uma crise conceitual sobre o que viria a ser a própria atividade.3

Pelo ponto de vista do que se poderia chamar de cultura de Comunicação, a idéia de construir conceito, ao invés de imagem, aproxima-se em seus desdobramentos teóricos do modelo dialógico proposto pelos autores latino-americanos da comunicação. É exatamente o caráter dialógico que proporcionou às relações públicas promover um modelo comunicacional que o distinguia do modelo da publicidade e propaganda. As práticas comunicacionais dialógicas, como proposta teórica e política levada a cabo por pesquisadores na América Latina, visaram romper com o modelo difusionista, até então hegemônico no imaginário das práticas comunicacionais. O dialogismo proposto pelos latinos emergia como modelo comunicacional resultante das demandas e da pressão da crítica social, que em outros termos pode ser confundida com a própria opinião pública e a opinião dos públicos.

A proposta dialógica dos latino-americanos implicou não necessariamente na elaboração de novos métodos de “engenharia da informação”, mas na elaboração de novos parâmetros éticos no relacionamento entre organizações e sociedade, com o discurso organizacional passando a ser modulado pela força da crítica social. A nosso ver, os estudos em relações públicas tiveram historicamente desenvolvimento paralelo, e mesmo interseções e contaminações, com o pensamento latino-americano em Comunicação. Estas interseções foram possíveis na medida em que as RP passaram a dirigir seus esforços teóricos na formulação de um modelo comunicacional voltado para o campo da recepção, tendência que a perspectiva dialógica apontava como premissa da emergência de um novo pensamento comunicacional. O modelo comunicacional em relações públicas, ao proceder à troca das estratégias da construção de imagem pela criação do conceito organizacional, aproximou-se do dialogismo oriundo do pensamento latino-americano em Comunicação como instrumento de interpretação e gestão dos conflitos sociais evidenciados pela opinião pública e pela opinião dos distintos públicos.

Na história dos estudos em relações públicas, Teobaldo de Souza Andrade4 preocupou-se em desenvolver a definição de público e, a partir dele, o conceito de opinião do público como desdobramento do conceito de opinião pública. Evidenciava-se nesse trabalho uma ruptura com o modelo de comunicação unilateral, na medida em que pregava o debate, ou seja, o diálogo, como construção do público e da conseqüente opinião do público. Na definição usada pelo autor, são necessários os seguintes elementos para a formação do público: pessoas ou grupos organizados de pessoas; com ou sem contigüidade espacial; existência de controvérsia; abundância de informações; oportunidade de discussão; predomínio da crítica e reflexão; e procura de uma atitude comum.

O indivíduo, no público, não perde a faculdade de crítica e autocontrole; está disposto a intensificar sua habilidade de crítica e de discussão frente à controvérsia; age racionalmente através de sua opinião, mas disposto a fazer concessões e compartilhar de experiência alheia.5 O conceito mais preciso de público, originário da psicologia social e adotado por Teobaldo de Andrade em relações públicas, é o de Herbert Blumer. Segundo este conceito, público é um “... grupo de pessoas, voltado para uma controvérsia, com opiniões divididas quanto à sua solução e com oportunidade para discussão pública dessa controvérsia”.6



Baixar 85 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino fundamental
Processo seletivo
ensino médio
Conselho nacional
minas gerais
terapia intensiva
oficial prefeitura
Curriculum vitae
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
educaçÃo física
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
Conselho regional
ensino aprendizagem
ciências humanas
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Dispõe sobre
ResoluçÃo consepe
Colégio estadual
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
extensão universitária
língua portuguesa