2; Mirian A. Meliani Nunes3; Roseli C. M. R. Demercian4; Vanessa Lopes5 Introdução



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PULSAÇÕES ARTÍSTICAS NO ASFALTO:

A POLÍTICA DO IMPONDERÁVEL1
Bernardo Queiroz 2; Mirian A. Meliani Nunes3; Roseli C. M. R. Demercian4; Vanessa Lopes5

Introdução
Este artigo procura vasculhar sentidos e conexões entre a ocupação das ruas por manifestações políticas, a intervenção artística nesses mesmos espaços públicos, a percepção cognitiva dos signos produzidos nesse fluxo, os modos como são traduzidos nos ambientes digitais em rede e as reações do poder instituído quando tais relações se estabelecem fora dos espaços previamente consentidos, causando um desarranjo nas regras limitadoras de afetos urbanos e midiáticos.

Tal complexidade de cenário é abordada a partir de obra artística desenvolvida pelo grupo Olho da Rua e divulgada nas redes sociais digitais pela Mídia Ninja.6 O objetivo é estabelecer nexos, liames entre as diversas formas de manifestação do pensamento, partindo de um breve estudo sobre a fruição do espaço público, com a construção de uma nova narrativa jornalística, passando pelo instrumento de difusão das ideias e conceitos, consubstanciados em novas táticas das mídias audiovisuais, encerrando com o papel fundamental das manifestações artísticas como potencializadoras da interatividade de toda uma rede cognitiva.

A obra em questão é uma intervenção no espaço urbano, no centro da cidade de São Paulo, que procura transformar em memória artística o momento em que o fotógrafo Sérgio Silva foi atingido por um projétil de borracha disparado pela Tropa de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo, durante as manifestações de 2013. O episódio levou à perda do seu olho esquerdo, substituído por uma prótese, interferindo diretamente na continuidade da carreira do jornalista independente. Divulgada pela Mídia Ninja, a obra do grupo Olho da Rua surgiu em resposta à repetição da violência praticada pela Polícia Militar desde as manifestações de 2013.

Para melhor compreensão das nuances envolvidas, começamos abordando as manifestações de 2013, que ocorreram a partir do mês de junho e se espalharam por grandes cidades brasileiras. Nesse movimento, inserem-se a ascensão da Mídia Ninja como nova proposta de narrativa jornalística, o encontro entre ruas e redes digitais no Brasil, a reação repressiva do Poder Público sobre os espaços da cidade e as leituras possíveis dessas conexões.

Tudo isso fez parte de um contexto ainda maior, em que as redes sociais digitais ganharam destaque como espaço privilegiado para que manifestações populares de grande alcance pudessem ser organizadas de maneira autônoma. Algo assim pôde ser percebido em movimentos de caráter muito semelhante e que se espalharam por diferentes pontos do planeta, sempre organizados por meio das redes (HARVEY e col., 2012). Tidos como manifestações de tipo viral, que começam localizadas e ganham força surpreendente com a propagação de atos convocatórios, principalmente nas redes Facebook e Twitter, podemos citar a Primavera Árabe, no Oriente Médio, o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, os Indignados, na Espanha, e a Revolta da Praça Taksim, na Turquia. Todos estes eventos guardam similaridades com os protestos de Junho de 2013, no Brasil.

Do ponto de vista do uso das redes, partimos do pressuposto de que a conexão tecnológica permite a renegociação de mídias entre produção/uso estratégico e produção/uso tático. Michel de Certeau, em As artes do cotidiano (1990), define a tática como sendo,

[...] a oposição aos procedimentos de estratégicos institucionais, os procedimentos que, se pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias em que o instante de uma intervenção precisa transformar uma situação desfavorável em favorável, à rapidez com que mudam uma organização do espaço, as relações entre os momentos sucessivos de um “golpe”, [...] elas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões e dos jogos que introduz dentro de um poder (CERTEAU, 1990).

Desta maneira, emaranhados de redes e indivíduos anônimos e não-correlacionados crescem de maneira livre e de desenvolvimento orgânico, articulando-se por suas próprias lógicas e efetivamente se opondo aos modelos mais engessados de mídias tradicionais, que estamos chamando de estratégicas ou institucionais. As mídias que aqui chamamos de táticas acabam trabalhando entre as frestas e rachaduras de sistemas que, originalmente, são criados de maneiras limitantes. As mídias táticas são redes de distribuição de informações não-alinhadas a um sistema/servidor emissor central, organizadas através de interligações computacionais: todos os usuários trocam informação ao mesmo tempo de maneira rizomática, não linear. Quando um arquivo, no caso um vídeo, é oferecido nesta rede, se torna uma peça de um grande algoritmo, um sistema pré-indexado que se forma durante o processo de troca.

Essa facilidade de circulação e distribuição cria redes-dentro-de-redes, uma forma de consumo diferente para qualquer conteúdo midiático, independentemente das situações tradicionais de distribuição originais. Redes de contatos entre anônimos que não se conhecem, articulando conexões sempre mutáveis de distribuição, são capazes de burlar barreiras institucionais, como a maioria de redes de censura. Durante o fim do século XX e primeira década do século XXI, o computador de mesa foi a principal ferramenta de acesso aos dados em rede. Este cenário mudou com a rápida aceitação de tablets e telefones celulares com resoluções e armazenagens cada vez mais altas.

É neste contexto, em que as pequenas telas móveis podem ser carregadas para qualquer lugar e permitem o acesso imediato à internet, que acontece o encontro entre as ruas e as redes. Ao observar especificamente a intervenção do Olho da Rua, partimos do pressuposto de que a arte do século XXI se baseia no intercâmbio entre a realidade simbólica e as relações sociais, de um lado, e a percepção do real expressa em narrativa, ou como o sujeito vê o mundo, de outro. O foco, portanto, não é apenas o objeto, mas o processo em que tal objeto se insere, descontinuado das práticas e dos conceitos tradicionais de arte.



Vista como parte integrante dos fluxos de comunicação de ideias e informação, aqui a arte está centrada na continuidade dos processos. A intervenção Olho da Rua pode ser compreendida no âmbito das questões políticas emergentes no Brasil, ao tensionar os sentidos políticos de ocupar a rua, transformá-la em moldura viva para a criação artística, interferir na mobilidade diária permitida pelo poder institucional - que estabelece como limite as ações classificadas como produtivas -, gerando ruído no trânsito urbano, além das transmutações a partir da inserção no espaço digital.

Por fim, com o objetivo de apontar as condições que levaram à formação desse coletivo, suas escolhas estéticas e performativas, realizamos uma entrevista com um dos artistas envolvidos na ação, preservando sua opção de se manter em anonimato. A ação realizada no centro de São Paulo será analisada em contraponto à intervenção urbana Preto&Branco Colorido, uma colaboração artística entre a Companhia Flutuante (SP) e o Grupo Acidum (CE), realizada em 8 de julho de 2012 na cidade de Fortaleza (CE)7.



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