12 Meses de Empreendedorismo



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Confiar é preciso

Para quem esteve ausente de Portugal durante toda a década de 1990 e só há pouco regressou o que impressiona são, por um lado, a consciência do peso que a economia paralela tomou no nosso país e, por outro, a falta de confiança interpessoal e institucional que se generalizou na sociedade e mina profundamente as relações económicas. Estas situações são barreiras poderosas ao desenvolvimento do empreendedorismo e, se não trabalharmos para as combater, de pouco valerão incubadoras, fundos de capital de risco ou planos de formação por mais sofisticados que sejam. A economia paralela não lesa apenas o pagamento de impostos - essa é até uma questão de somenos -, o que verdadeiramente dói é o quanto ela, por definição, "puxa" toda a economia para baixo e a mantém aí, ao jogar-se e prosperar num ambiente de pequenos negócios, anti-inovação e anti-crescimento, onde não podem existir registos, nem facturas, nem trabalhadores legalizados, e, por isso, não se desenvolvem tecnologicamente, não procuram o desenvolvimento dos outros, nem novas formas de organização ou de processos.

E qual o valor da confiança? A confiança é um bem inestimável na organização em rede, característica do novo panorama económico onde qualquer empreendedor terá de se incorporar para aceder ao conhecimento e aos mercados. É um factor chave na redução dos custos de transacção entre e dentro das empresas: o grau de confiança mútua determina a estrutura de governação e o custo de um contrato. Tem um valor económico e um valor moral; contribui para garantir a eficácia e a eficiência da gestão; ajuda a gerar e a difundir o conhecimento, a dirimir conflitos e a ultrapassar situações de crise. É a confiança na reciprocidade dos outros que torna possível qualquer interacção social incluindo a disponibilidade para contribuirmos com ideias num processo de "brainstorming".

Qualquer empreendedor que queira entrar ou desenvolver-se num determinado sector enfrenta custos de transacção e de aprendizagem dependendo da sofisticação tecnológica e da concorrência existentes nesse sector. A construção de redes (capital social) é uma forma de os empreendedores reduzirem esses custos e também de reduzirem o risco, melhorando o conhecimento e a partilha de informação. A confiança constitui a base de construção das redes e facilita a cooperação entre empreendedores, um elemento tão importante quanto a eficiência para se poder concorrer e ter sucesso num mercado global. Qualquer estudo recente sobre empreendedorismo reflectirá o consenso generalizado de que os empreendedores devem estabelecer redes baseadas na confiança a fim de garantirem acesso a recursos tangíveis e intangíveis como, por exemplo, motivações e ideias para novos conceitos empresariais.

Ao iniciar um negócio, o empreendedor leva para a arena competitiva três tipos de capital: financeiro, humano e social. O capital financeiro diz respeito às suas disponibilidades, a linhas de crédito, a empréstimos; o capital humano representa as qualidades naturais do empreendedor, o seu encanto, saúde, inteligência, capacidade de trabalho; por fim, o capital social refere-se às relações com outros indivíduos ou entidades. Para o empreendedor o valor económico deste capital não se limita ao de um activo valioso: dele depende também a dimensão da oportunidade. Senão vejamos: o empreendedor faz um determinado investimento e obtém uma dada taxa de retorno, o lucro resulta do produto entre ambos. Nesta equação, o tipo e o montante do investimento dependem do que se quer produzir. O investimento é uma questão de produção; por sua vez a taxa de retorno constitui uma oportunidade para o investimento se transformar em lucro. Para um mesmo investimento, no mesmo mercado, dois empreendedores irão obter taxas de retorno diferentes: o que os diferencia é precisamente o capital social, o árbitro final da oportunidade. Se, como diz a teoria, a concorrência fosse perfeita, o empreendedor poderia confiar no mercado para obter uma retribuição justa para o seu investimento. Não o sendo, apenas pode confiar na sua rede de relações. Em conjunto com os outros tipos de capital, o capital social - com base na confiança - é um mecanismo valioso na formação do crescimento económico.

Para ser eficaz a rede de relações não pode limitar-se à família e aos amigos próximos do empreendedor, tem de estender-se, através da confiança, a outros actores e a instituições com os quais ele deve lidar. A consistência na qualidade e no cumprimento dos prazos de entrega são elementos indispensáveis à construção da confiança. Como também o é o cumprimento dos prazos de pagamento. Quando no início dos anos 1970 iniciei uma empresa, alguém me deu um conselho sábio: "para construíres confiança paga sempre pelo menos um dia antes do vencimento; mesmo que te custe muito, a confiança é um investimento inestimável no teu negócio, e não há taxa de juro que se lhe compare". Entretanto, no nosso país, os atrasos e as faltas de pagamento tornaram-se numa forma normal de fazer negócios - a começar pelo Estado - e são frequentemente associados a uma boa gestão. Atrasamo-nos ou não pagamos a fornecedores, trabalhadores, prestadores de serviços, ou ao Estado, sempre e quando nos é possível e, contudo, na actividade económica nada mina mais a confiança e o desenvolvimento da capacidade empreendedora. O ditado português "pagar e morrer quanto mais tarde melhor" não é um bom amigo do empreendedor. Todos seremos poucos para o combater porque o empreendedorismo diz respeito ao nosso presente e ao nosso futuro: está na moda, mas não é uma moda.




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