1. Ortónimo «Pessoa como Pessoa»



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A Nostalgia da Infância

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Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar 

E toda aquela infância


Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,


E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no me coração.  

Fernando Pessoa, Cancioneiro

 

O poema fala-nos da infância. O sujeito poético remete-nos para a alegria que rodeia as crianças durante as suas constantes brincadeiras. Ele próprio, ao observar tamanha simplicidade e magia, se deixa invadir por sentimentos agradáveis “Qualquer coisa em minha alma/Começa a se alegrar”.



No entanto, esta alegria que o sujeito lírico sente, fá-lo lembrar-se da sua própria infância que, por ter sido tão apagada de alegrias e brincadeiras, passa por nunca ter existido, algo que ele frisa bem: “E toda aquela infância/ que não tive...

Com uma pontinha de nostalgia, o eu poético termina com uma quadra mais complexa, mas que se traduz simplesmente. Já que ele não sabe bem o que chamar à sua infância pobre em afecto, se não se reconhece no próprio passado, nem sabe quem virá a ser no futuro – tudo o que ele pode fazer é imaginar, adivinhar, ter uma visão, então, resta-lhe sentir a alegria e a felicidade que lhe invadem o coração quando, no presente, observa as crianças contentes.

 

Quando era criança

Quando era criança


Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.  

E hoje sinto


Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.  

Mas nesta prisão,


Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Fernando Pessoa, Cancioneiro

 

Mais uma vez, o poema aborda o tema da nostalgia da infância.



O sujeito poético, na infância, não tinha, como qualquer outra criança, consciência da realidade – “Vivi, sem saber,”. No entanto, agora tem-na. E mesmo que teime em relembrar esses tempos, ele sabe que nunca irão regressar, ele agora pensa. Por isso, é “Só para hoje ter/ Aquela lembrança.”

Depois, vemos que o eu poético sabe que apenas agora, que pensa, consegue perceber e sentir o que foi e o que viveu na infância: “E hoje sinto/ Aquilo que fui”. Mas, no entanto, a vida dele, neste presente, passa-se numa mentira “Minha vida flui,/Feita do que minto.” Ele não mente, efectivamente, mas acha que não está a viver realmente, o que acaba por tornar a sua vida numa constante dúvida e conflito existencial.

Por fim, no última quadra, ele conclui simplesmente. Como não se pode esquivar da vida que tem, da mentira que supostamente vive (“Mas nesta prisão”), então restam-lhe unicamente as memórias dos tempos que já passaram (“Livro único, leio”) e que, apesar de felizes, já não lhe pertencem porque ele já não é assim (“O sorriso alheio/De quem fui então”).

Para atenuar a dor de pensar, Pessoa revive a infância, utilizando o fingimento artístico. No entanto, F. Pessoa não fala da infância dele, fala da infância em geral, como sinónimo de felicidade, calma, tranquilidade. A criança deixa-lhe saudades e ele sente-se cada vez mais longe dela, mais velho. No fim, quando regressa do devaneio, choca com o presente e ainda se sente pior, com a dor mais agravada pela saudade.

 



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