1 e as personagens na literatura. Sugestões práticas



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Guião Pedagógico “Género e Cidadania” para o 2º CEB

4. Intervenção educativa: Género e as personagens na literatura. Sugestões práticas.

Ângela Balça, Alberto Martos Garcia; Aitana Martos Garcia



4. INTERVENÇÃO EDUCATIVA: GÉNERO1 E AS PERSONAGENS NA LITERATURA. SUGESTÕES PRÁTICAS
4.1 – A diferenciação de género nas personagens de literatura infantil e juvenil
Este caderno do guião pretende debruçar-se sobre a questão do género e a literatura de potencial recepção infantil e juvenil, centrando-se nomeadamente nas personagens dos textos. De acordo com M. Rosa Luengo González (1997), através dos contos ensinamos as crianças a comportar-se, a assumir os seus papéis como seres masculinos ou femininos, oferecemos-lhes modelos. Por outro lado, ainda segundo esta autora, as personagens dos contos reflectem as relações de poder na sociedade e os âmbitos em que cada um, homem ou mulher, se devem mover.

Em muitas narrativas, as questões de género não são propriamente abordadas de forma explícita; elas estão plasmadas na trama, nos espaços e nos comportamentos das personagens. Neste sentido, o papel da/o mediador/a de leitura, assumido muitas vezes pela/o docente, é fundamental. Serão estas/es mediadores/as que, através de um trabalho de exegese sobre os textos, possibilitarão aos/às alunos/as, em leituras mais profundas, compreenderem, comentarem e discutirem estas mesmas questões de género. No entanto, noutras narrativas, as questões de género estão bem presentes e poderão ser facilmente identificadas e discutidas pelos/as mediadores/as com os/as alunos/as. Não cabe neste guião discutir se essas narrativas são ou não textos literários; essa será uma avaliação que competirá aos/às docentes.

Culturalmente e no âmbito da literatura tradicional, de acordo com Cláudia Fernandes (2007), a mulher apresenta-se como mãe ou madrasta e esposa, como dona de casa; para Anamarija Marinovic (2009), o papel da mulher na sociedade e na família, nas narrativas tradicionais, é fruto de factores enraizados nas culturas que as produziram. Assim, muitas mulheres, rainhas ou nobres, apresentam-se como consortes e não como detentoras de um poder real. Em muitos textos, o homem é privilegiado, evidenciando-se as suas capacidades e virtudes e o prestígio dos seus papéis sociais, mas noutros, segundo Anamarija Marinovic (2009), a mulher é mais competente e mais inteligente, mesmo que o homem tenha um cargo mais importante na sociedade. A título de exemplo apresentamos a narrativa tradicional As orelhas do abade, recolhida por Teófilo Braga2, em finais do século XIX, numa reescrita de Maria Teresa dos Santos Silva. Neste conto, as personagens são dois homens, um caçador e um abade, e a mulher do caçador, dona de casa. O caçador deu à mulher apenas duas perdizes, para que elas as cozinhasse, pois “Na mulher não pensou para as comer / mas apenas para as cozinhar”. O desenlace deste texto revela-nos uma mulher inteligente e astuciosa, uma vez que, sem que os homens o percebessem, foi ela que acabou por comer as tão desejadas perdizes.

Se nos centrarmos na actual literatura de potencial recepção infantil e juvenil, de acordo com Ana Maria Barbosa (2009) podemos encontrar dois tipos de narrativas; por um lado, nalguns textos ainda encontramos, em relação à mulher, modelos estereotipados da esposa e da mãe; por outro, noutras narrativas, nota-se “uma emergente consciência do feminino, do seu valor e papel estruturante na sociedade”(p.96), tendo havido uma evolução no papel desempenhado pela mulher. Porém, e ainda segundo Ana Maria Barbosa (2009), a diferença entre os géneros permanece, de um modo geral, em textos de potencial recepção infantil e juvenil – “as mulheres, embora mais valorizadas, têm de ser super-mulheres para conciliar filhos, marido, trabalho e tarefas domésticas”(p. 99). Assim, apresentamos a título de exemplo, o texto de Maria Manuela Alves, Salpico. Nesta narrativa, assistimos ao dia a dia de uma família portuguesa, onde a mulher assume sozinha as responsabilidades da casa e dos filhos. Assim, de manhã cedo, enquanto o marido e os filhos mais velhos se arranjam para sair de casa, a mãe arruma a loiça do jantar do dia anterior, faz o pequeno-almoço para toda a família, trata do filho mais pequeno, alerta os outros filhos para possíveis esquecimentos, pensa nas compras que irá fazer, no supermercado, na sua hora de almoço. Já no automóvel, a caminho do emprego, o pai ouve as notícias, mas a mãe continua a fazer recomendações aos filhos. Quando chegam à escola, frequentada pelo filho mais novo, é a mãe que o entrega à professora e que com ela troca breves palavras, pois tem de estar no seu próprio emprego a horas.

A diferenciação entre géneros tem, ainda em muitos textos, como pano de fundo as atitudes masculinas e femininas perante as tarefas caseiras e o cuidar dos filhos. De um modo geral, o homem tem a sua profissão tal como a mulher, mas as responsabilidades domésticas estão a cargo da mulher. Apesar de se apresentar à criança um modelo de mulher, que já tem uma profissão fora do âmbito doméstico, continuam a perpetuar-se outros modelos, nomeadamente os relacionados com a casa e o cuidado dos filhos, em que o homem se mantém ausente e indiferente a estas responsabilidades e a mulher continua a assegurar o seu funcionamento sozinha (Ângela Balça, 2004).

Para Adela Turin (1995a), o estereótipo da mãe dona de casa é o esteio da discriminação entre géneros, na literatura infantil, uma vez que os livros infantis veiculam, para as crianças, que os homens não estão vocacionados para as questões domésticas. Relembremos apenas a personagem D. Sibilina, da narrativa de António Mota, A casa das bengalas - é esta mulher, esposa e mãe que tem a responsabilidade total das tarefas domésticas, sem a colaboração do marido, “que tanto gostava de dizer que nem um ovo sabia estrelar”. Estas imagens estereotipadas da mulher e do homem seriam, ainda segundo Adela Turin (1995b), limitadoras para as raparigas e empobrecedoras para os rapazes, que estariam privados de modelos femininos mais actuais e enriquecedores da sua formação cívica.

Aliás, para Ana Silva et al.(1999), uma das deficiências das narrativas para crianças estaria, precisamente, na falta de visibilidade atribuída ao feminino. Este é um dos aspectos a que as/os docentes mediadores/as terão de estar muito atentos, na aproximação destes textos ao seu público, porque muitas vezes o estereótipo pode estar contido nesta falta de visibilidade e nos silêncios quer do feminino quer da desconstrução das acções e dos espaços, onde estas personagens femininas se movimentam.

As narrativas, cujas personagens são crianças ou adolescentes, são também, nalguns casos, um veículo para a transmissão de estereótipos de género. Segundo Ivone Leal (1982), o espaço geográfico exterior, o mundo desconhecido, onde se procuram as aventuras, é um espaço que pertence aos rapazes, que aparecem mais entregues a si próprios, sendo portanto mais um traço diferenciador do conteúdo dos estereótipos de género. Centremo-nos na narrativa de Álvaro Magalhães, O vampiro do dente de ouro. Neste texto, o grupo de amigos é constituído por rapazes e raparigas, existindo, contudo, comportamentos diversos entre os dois géneros e entre as próprias raparigas. Assim, a Joana, embora alinhe nas mesmas aventuras dos rapazes, é-nos apresentada como sendo mais sensível e mais medrosa do que eles, preocupando-se os rapazes em protegê-la de alguma forma; já a Xaninha surge como corajosa, destemida, com um comportamento semelhante ao dos rapazes, que até a admiram. Porém, apesar destas qualidades, a Xaninha apresenta defeitos execráveis, como a maldade, a perversidade, a deslealdade. A juntar a estes defeitos, a Xaninha é caracterizada fisicamente como sendo uma rapariga baixa, feia e gorda.

De facto, Ivone Leal (1982) afirma que é nos comportamentos que se encontram os traços verdadeiramente sexistas. Assim, as raparigas surgem-nos como inseguras e dependentes afectivamente em oposição à capacidade de decisão, de liderança e à autonomia dos rapazes. Quando as raparigas evidenciam comportamentos semelhantes aos dos rapazes, então são penalizadas no aspecto físico e/ou psicológico.

Contudo, há narrativas que, de acordo com Ana Maria Barbosa (2009), evidenciam já uma consciência e uma valorização do papel da mulher na sociedade actual. Nalguns textos, a discriminação de género é fortemente criticada pelas mulheres e pelas jovens, que não a aceitam pacificamente e que tentam de alguma forma mudar o estado das coisas (Balça, 2004). Como exemplo citamos o texto de Luísa Ducla Soares, Diário de Sofia e companhia aos 15 anos, onde a protagonista reclama do facto do pai não colaborar nas tarefas domésticas; ou o texto de António Mota, Cortei as tranças, em que a protagonista resolve deixar de ser empregada doméstica e aprender um ofício, neste caso de electricista, classificado imediatamente como profissão de homem “Electricista não costuma ser profissão de mulheres, mas isso não quer dizer nada...”.

Por isso, se nos afigura tão importante o contributo da literatura de potencial recepção infantil e juvenil para a promoção, entre as crianças e os jovens, de uma educação para a igualdade de género, porque se a literatura ainda veicula alguns modelos estereotipados que reproduzem relações de poder assimétricas na sociedade (tanto no espaço social como no domínio privado), já abriu portas, por outro lado, à contestação, à crítica a esses modelos e à transmissão de novos e mais justos modelos de organização da sociedade.
Referências Bibliográficas
BALÇA, Ângela (2004). A finalidade educativa das narrativas infanto-juvenis portuguesas actuais. Tese de Doutoramento não publicada. Évora: Universidade de Évora.

BARBOSA, Ana Maria (2009). Análise das representações de género e seus valores na literatura infanto-juvenil e na formação da criança. Dissertação de Mestrado em Estudos da Criança (área de especialização em Análise Textual e Literatura Infantil) não publicada. Braga: Universidade do Minho



http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/10997/1/tese.pdf [consultado em 15/09/2011]

FERNANDES, Cláudia (2007). A Figura Feminina como Protagonista de contos tradicionais portugueses. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa não publicada. Vila Real: UTAD

http://repositorio.utad.pt/bitstream/10348/70/3/msc_cdsfernandes.pdf [consultado em 15/09/2011]

LEAL, Ivone. (1982). O masculino e o feminino em literatura infantil. Lisboa: Comissão da Condição Feminina.

LUENGO GONZÁLEZ, M. Rosa. (1997). Análisis del sexismo en los cuentos infantiles. In Enrique Barcia (ed.), 197-200. BARCIA, Enrique (Ed.). 1997. Contos e Lendas de Espanha e Portugal. 1ª ed. Mérida: Ed. Regional de Extremadura.

MARINOVIC, Anamarija. (2009). Visão dos Homens, Mulheres e Crianças nas Narrativas Curtas da Tradição Popular Portuguesa e Sérvia. Dissertação de Mestrado em Língua e Cultura Portuguesa / Português Língua Estrangeira / Língua Segunda não publicada. Lisboa: FL/Universidade de Lisboa



http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/419/1/20783_ulfl071225_tm.pdf [consultado em 15/09/2011]

SILVA, Ana da, ARAÚJO, Dina, LUÍS, Helena; RODRIGUES, Isabel; ALVES, Madalena; CARDONA, Maria João; CAMPICHE, Pedro; TAVARES, Teresa. (1999). A narrativa na promoção da igualdade de género. Contributos para a educação pré-escolar. Lisboa: Comissão para a igualdade e para os direitos das mulheres.

TURIN, Adela. (1995a). Los cuentos siguen contando. Algunas reflexiones sobre los estereotipos. Madrid: Horas y Horas.

TURIN, Adela. (1995b). La literatura infantil y juvenil y su contribución a la igualdad entre los sexos. In AA VV, 37-55. AA VV. 1995. 24º Congreso internacional del IBBY de literatura infantil y juvenil – Memoria. OEPLI.


Textos para crianças e jovens citados
ALVES, Maria Manuela. (1989). Salpico. Ed. Caminho

MAGALHÃES, Álvaro. (2006). O vampiro do dente de ouro. Ed. Asa

MOTA, António. (2004). Cortei as tranças. Ed. Gailivro

MOTA, António. (2007). A casa das bengalas. Ed. Gailivro

SILVA, Mª Teresa Santos. (2003). As orelhas do abade. Ed. Ambar

SOARES, Luísa Ducla. (2004). Diário de Sofia e companhia aos 15 anos. Ed. Civilização






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