É com muita honra e grata satisfação que me congraço com as 21 entidades, seus representantes e os onze mil participantes deste III congresso Brasileiro de Psicologia



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Encontro28.02.2019
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Bom dia a todos.

Excelentíssimos membros da mesa diretora do III Congresso Brasileiro de Psicologia.

Senhoras e senhores.

É com muita honra e grata satisfação que me congraço com as vinte e uma associações integrantes do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira, seus representantes e os onze mil colegas inscritos neste Congresso, cujo foco é a Ciência e a Profissão.

Como presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia, agradeço a presença de todos e o empenho das entidades que, como a Abrap, não mediram esforços para a concretização deste evento.

Em 2003, ao participar do IV Congresso da Federação Latino-Americana de Psicoterapia, realizado na Venezuela, em Caracas, tive a oportunidade de saber da existência de organizações de Psicoterapia em alguns países da América Latina. Após uma conversa informal com o presidente da World Council for Psychoterapy, Professor Doutor Alfred Pritz, fui por ele indagada a respeito da abrangência do universo de psicoterapeutas no Brasil.

– Grande, respondi. Há muitos psicoterapeutas em meu país.

A partir da constatação dessa realidade e da inexistência de uma entidade que nos unisse, surgiu a ideia de criar uma associação para fortalecer a identidade do psicoterapeuta brasileiro, valorizar sua prática e facilitar o contato com trabalhos nacionais e internacionais, promovendo a atualização de saberes. O envolvimento de um grupo de psicoterapeutas que acreditou ser isso possível e necessário resultou na construção da Abrap em 2004.

Falo em construção porque todos os que estavam presentes naquele momento sedimentaram a Abrap, alicerçando uma estrutura consistente e comprometida com os objetivos ali delineados. Investimos com nossa alma para construir esse campo de ação, onde é possível estabelecer e propor interfaces. Nada mais justo, portanto, esperarmos que, com o trabalho, a força e a coragem daqueles que se disponibilizarem, a Abrap permaneça depois de nós.

Em maio de 2004, a Associação foi fundada. A partir de então, procuramos congregar e promover o intercâmbio entre os profissionais das diversas tendências existentes na atualidade, abarcando um amplo espectro de linhas psicoterápicas, tais como a psicanalítica, a psicodramática, a cognitivo-comportamental, a sistêmica, a corporal, entre tantas outras.

A Abrap é uma instituição jovem, que ainda está se construindo em nível nacional por causa da abrangência de seu universo e das dificuldades inerentes a um projeto de tal magnitude.

Filiar-se a ela significa participar de uma identidade coletiva que nos represente e que, sem dúvida alguma, pode enriquecer a Psicoterapia e o profissional que a exerce. Neste Congresso, a Abrap é responsável por sessenta e seis atividades, entre conferências, cursos, mesas redondas, simpósios, discussões e práticas.

A Psicoterapia vem ganhando notoriedade mundial nos últimos quinze anos e o atendimento psicoterápico é uma necessidade cada vez mais crescente. Em um mundo globalizado, detectamos benefícios relacionados à rapidez da informação, à troca de experiências, à facilidade de deslocamento para territórios cada vez mais distantes, à celeridade no desenvolvimento da tecnologia. Mas acusamos, sobretudo, os sintomas de uma angústia existencial, com uma ansiedade epidêmica a permear indivíduos das mais diferentes faixas etárias e áreas de atuação profissional.

Qual a contribuição do psicoterapeuta diante dessa frenética mudança de valores, em que a estrutura familiar se modifica rapidamente, em que a tolerância tem pressa, em que os significados são esquecidos, em que o ser humano é descartável no trabalho, no lar e na sociedade?

Como cuidar desse universo de excluídos que, por exigência da cultura contemporânea de intensa transitoriedade, já soma milhões de pessoas? Uma estatística da Organização Mundial de Saúde aponta que a depressão será a doença mais disseminada entre os povos a partir de 2020.

Os governos, de um modo geral, pouco cuidam da saúde mental de sua população e o atendimento psicoterapêutico é praticamente inexistente para os mais pobres. Também os planos de saúde, em sua maioria, não proporcionam essa cobertura. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que em cada quinhentos milhões de pessoas, metade delas não tem acesso a esse tipo de tratamento.

A expansão do atendimento é uma necessidade urgente. O psicoterapeuta é um agente de saúde, de prevenção e de transformação. Ocupa lugar primordial no tratamento das diversas patologias da modernidade e o efeito social de sua prática mostra ser cada vez mais producente. Ao facilitar o resgate do indivíduo enquanto singularidade em sua própria vida, no relacionamento com o outro e com os diferentes grupos que participam de seu cotidiano, está reintegrando o ser humano à própria existência, agora com uma atitude mais observadora, mais crítica e filtrada em relação ao mundo e, portanto, com maior poder de intervenção e de transformação da sociedade.

Mais uma vez, a Organização Mundial de Saúde nos aponta um dado importante: a necessidade atual de um psicoterapeuta para cada grupo de mil pessoas, ou seja, mil profissionais da área para cada um milhão de pessoas. Há muito espaço de trabalho e de luta para todos nós.

Acredito que nossa ação deva ser nesse sentido, a de lutarmos também e principalmente para que as pessoas desassistidas em relação à saúde mental tenham acesso aos tratamentos psicoterapêuticos. E como podemos lutar? Juntos, unidos em associações que nos prestigiem, que nos proporcionem essa identidade coletiva que temos buscado, para interferir com força junto aos órgãos públicos e privados responsáveis pela saúde da população.

Quando alguém solicita mais de nós e respondemos que estamos fazendo o possível, precisamos nos lembrar que o possível nunca é estático, não está pronto. Na concepção de Antonio Gramsci1, cientista político, escritor italiano e um dos maiores intelectuais do século XX, aprendemos que

“a possibilidade não é a realidade, mas é, também ela, uma realidade: que o homem possa ou não fazer determinada coisa, isto tem importância na valorização daquilo que realmente se faz. Possibilidade quer dizer ‘liberdade’. A medida de liberdade entra na definição do homem. Que existam as possibilidades objetivas de não se morrer de fome e que, mesmo assim, se morra de fome é algo importante, ao que parece. Mas a existência de condições objetivas – ou possibilidade, ou liberdade – ainda não é suficiente: é necessário conhecê-las e saber utilizá-las. Querer utilizá-las”.

Assim, se a gestação do futuro ocorre neste momento, nosso desafio está em construí-lo da maneira como julgamos possível e necessário que ele seja. Podemos encontrar a possibilidade de construir no presente, no real, algo que possa ser cada vez mais ideal.

Queremos lembrar, seguindo essa linha de pensamento da escritora, filósofa e Professora Doutora Terezinha Azeredo Rios2, integrante do quadro docente da Universidade Nove de Julho, que não somente as ações daqueles tidos como grandes personagens é que fazem a história. Ela é feita, sim, por todos os indivíduos de uma determinada época, a partir de seus desejos e necessidades, nas condições concretas que encontram e, principalmente, naquelas que constroem. Juntos, podemos aprender mais na troca de experiências e enriquecer a história da psicoterapia. Juntos, podemos fazer mais “com” e “pelo outro”.

Emília Calixto Afrange

São Paulo, 2 de setembro de 2010.


1 GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. 2. ed. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1978, p. 47.

2 RIOS, Terezinha Azerêdo. Significado e pressupostos do projeto pedagógico. Disponível em:

< http://www.slideshare.net/aleredigolo/terezinha-rios1>

Terezinha Azerêdo Rios - possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1965), mestrado em Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1988) e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (2000). Atualmente é pesquisadora do GEPEFE - Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Formação de Educadores, da FE/USP. Fez parte, por mais de 30 anos, do quadro de professores do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP e trabalhou como professora colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Educação/Currículo, no convênio PUCSP / Universidade Pedagógica - Moçambique. É membro da Sociedade de Filosofia da Educação dos Países de Língua Portuguesa e do Conselho Editorial de Educação da Cortez Editora. Tem desenvolvido trabalhos nas áreas de Filosofia e Educação, especialmente da Ética e da Didática, voltando sua reflexão sobre os temas dos Fundamentos da Educação, da Formação de Professores, da Competência Profissional (texto informado pelo autor e disponibilizado em: < http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4773884Y8>





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